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Escravos do século XXI

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Embora o trabalho escravo seja proibido pela Organização das Nações Unidas – ONU – desde 1956, ele ainda subsiste em várias partes do mundo e em muitos lugares funcionam verdadeiras redes  de tráfico humano.

E, abril de 2004, o Unicef (órgão da ONU) apresentou um relatório no qual denuncia que, dos 53 países africanos pesquisados, 89% traficam pessoas com nações vizinhas e 34% com nações europeias. As crianças são as maiores  vítimas, obrigadas a trabalhar como escravos, a atuar como soldados nos exércitos ou a se prostituir.

Trabalhadores rurais em protesto contra o trabalho escravo Protesto contra trabalho escravo (Brasil)

Nos Emirados Árabes Unidos, no Oriente Médio, as crianças são traficadas para servir de jóqueis de camelos. Em países como Paquistão, na Ásia, e Albânia e Portugal, na Europa, na Europa, ainda subsistem trabalhos compulsórios. As principais vítimas são as mulheres, usadas como escravas sexuais.

No Brasil, os escravos são principalmente agricultores recrutados por empreiteiros, e levados para trabalhar em latifúndios. Quando ali chegam, descobrem que já devem o dinheiro referente ao transporte e à alimentação consumida na viagem. É uma dívida que se perpetua e que permanece sempre maior que o salário a ser recebido. Estima-se que no Brasil existam de 15 mil a 40 mil trabalhadores nessa situação. Em todo o mundo, esse número deve chegar a 20 milhões de pessoas.

(Fonte: Unicef cobra ação contra tráfico de pessoas na África. disponível em www.bbc.co.uk/portuguese/notícias/story/2004/04/040423_slavery.shtml>. Acesso em 17.fev.2005; Marie Agnés Combesque. Entre guerras e miséria: os escravos de hoje. São Paulo: Scipione, 2002.)

Gislane e Reinaldo. História. ensino médio. volume único.

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O Significado do 13 de Maio

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Ricardo Barros Sayeg

O dia 13 de maio de 1888 marcou oficialmente o fim da escravidão no Brasil, através de uma lei assinada pela Princesa Isabel, durante uma viagem de Dom Pedro II ao exterior. Naquela oportunidade houve uma série de comemorações, principalmente no Rio de Janeiro, capital do Império. Vários ex-escravos saíram às ruas comemorando o feito. É verdade que em várias regiões do país o trabalho escravo persistiu e só foi abolido no início do século XX. Ainda nos dias de hoje, volta e meia a imprensa nos dá informações sobre a existência do trabalho escravo em várias regiões do país.

O movimento negro, então, resolveu abolir essa data e comemorar a negritude no dia 20 de novembro, denominado Dia da Consciência Negra. Razão mais que justa, pois, de fato, o 13 de maio foi uma data que ocorreu de “cima para baixo”, sem a participação dos principais interessados no tema, apesar de haver no Brasil um movimento abolicionista bem forte naquele período, principalmente nas cidades mais importantes do sudeste do país.

O Dia da Consciência Negra não existe por acaso. Em 20 de novembro de 1695, Zumbi, principal liderança do Quilombo dos Palmares – a maior comunidade formada por escravos fugitivos das fazendas no interior de Alagoas – foi morto em uma emboscada na Serra Dois Irmãos, em Pernambuco, após liderar uma resistência que resultou no início da destruição daquela comunidade. Portanto, comemorar o Dia da Consciência Negra nessa data é uma forma de homenagear e manter viva na memória coletiva essa figura tão importante para a história do Brasil e para o povo negro em especial. Não somente a imagem do líder, mas também a sua importância na luta pela libertação da escravidão e na melhoria das condições de vida para esse povo.

Zumbi... Líder Negro Busto de Zumbi

Entretanto o 13 de maio de 1888 também tem seu significado. Liberal, a Princesa Isabel apoiava abertamente o movimento abolicionista. Ela chegou a amparar artistas e intelectuais que atuavam em favor do movimento da abolição da escravidão no Brasil. Muitos desses artistas e intelectuais apoiavam também a criação do sistema republicano no Brasil. Ela chegou a financiar a alforria de alguns escravos e dava guarida a muitos deles na sua casa em Petrópolis.

Joaquim Nabuco, um dos grandes políticos do Império, afirmava que a escravidão no Brasil era "a causa de todos os vícios políticos e fraquezas sociais; um obstáculo invencível ao seu progresso; a ruína das suas finanças, a esterilização do seu território; a inutilização para o trabalho de milhões de braços livres; a manutenção do povo em estado de absoluta e servil dependência para com os poucos proprietários de homens que repartem entre si o solo produtivo".

No dia 13 de maio de 1888 aconteceram as últimas votações de um projeto de abolição da escravidão no nosso país. A regente então, desceu de Petrópolis, cidade serrana, para aguardar no Paço Imperial o momento de assinar a Lei Áurea. Usou uma pena de ouro especialmente confeccionada para a ocasião, recebendo a aclamação do povo do Rio de Janeiro. O Jornal da Tarde, do dia 15 de maio de 1888, noticiou que"o povo que se aglomerava em frente do Paço, ao saber que já estava sancionada a grande Lei, chamou Sua Alteza, que aparecendo à janela, foi saudada por estrepitosos vivas."

É bem verdade que a Abolição da escravidão representou também a queda da monarquia no Brasil. Em 15 de novembro de 1889, o Império sucumbia, principalmente pela falta de apoio político daqueles que até então eram os únicos a sustentarem politicamente o Império: os grandes produtores rurais donos de escravos.

O 13 de maio, entretanto, não deve ser esquecido. Ele tem um lugar de enorme importância na história desse país e do povo brasileiro.

Ricardo Barros Sayeg:  Mestre em Educação, Bacharel em História e Pedagogia pela Universidade de São Paulo e Professor de História do Colégio Paulista. (colaborador do HISTOBLOG)

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Século XIX: A era do comércio ilegal de escravos

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Apesar da crescente pressão pelo fim do tráfico, o comércio negreiro resistiu até a segunda metade do século XIX, com algumas importantes  novidades. Na esfera da demanda americana, o abolicionismo fez seu estrago. A estratégia dos ativistas humanitários era comprometer a opinião pública ocidental, primeiramente com o fim do tráfico e, depois, com o do próprio cativeiro.

Seus efeitos foram mais sentidos nas colônias dos países da Europa do Norte, que acabaram com suas respectivas redes de tráfico na primeira década do século. Os africanos também pararam de chegar à Europa.

A rigor, sobreviveram, sobretudo, as indústrias açucareiras de Cuba e do Brasil, onde a cultura do café também se expandia.

Na esfera da oferta africana, a região congo-angolana voltou à liderança das exportações africanas, sobretudo através das baías de Benin e de Biafra.

Duas outras novidades foram o aumento da participação dos escravos originários da África Oriental (de Moçambique, principalmente), além do incremento do comércio negreiro no próprio litoral africano, em especial do norte para o sul do Equador. A mortalidade durante a travessia oceânica baixou muito pouco em relação ao século anterior, e foi maior durante os períodos de tráfico clandestino, quando se  deterioravam ainda mais as condições a bordo dos navios negreiros.

 

 

fluxo escravo século XIX

fonte: revista História Viva. ano VI. n.66.  por Manolo Florentino.

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O Apogeu do tráfico escravo - Século XVIII

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No auge do escravismo, o controle dos mercados de cativos era disputado por franceses e ingleses.

O tráfico negreiro atinge seu ápice no século XVIII. O sul dos Estados Unidos se especializava na produção do algodão que abastecia a Revolução Industrial nascente. No Brasil, crescia a demanda por escravos para a extração do ouro em Minas Gerais. A indústria açucareira caribenha atingia seu desenvolvimento máximo, com destaque para Saint-Domingue (atual Haiti).Todos esses movimentos funcionavam como uma espécie de engrenagem devoradora de mão-de-obra africana, motivo pelo qual a demanda americana alcançou o seu auge no século XVII, cerca de 1 milhão de africanos escravizados desembarcaram nas Américas; no século XVIII, esse número aumentou para 5,6 milhões.

A competição mais feroz pelo controle das rotas negreiras restringiu-se a portugueses, ingleses, franceses e holandeses. Muitas vezes, todos atuavam na mesma área, o que não os impediu de estabelecerem zonas preferenciais na costa africana.

Por volta de 1760, seis regiões podiam ser identificadas na África Ocidental, de acordo com o comprador europeu predominante. A primeira se estendia do cabo Branco, na atual fronteira entre o Marrocos e a Mauritânia, até Serra Leoa, e era dominada pela França. Os ingleses também atuavam ali e monopolizavam o tráfico entre o rio  Casamansa, (atual Senegal), e Serra Leoa.

A segunda se estendia de Serra Leoa até o cabo Palmas, na atual fronteira entre a Libéria e a Costa do Marfim. Logo vinha a região entre os cabos Palma e Três Pontas (atual Gana), onde o comércio era privilégio dos holandeses.

A leste estava a região que se estendia do cabo Três Pontas ao rio Volta, o mais disputado ponto costeiro de tráfico. Ali, a hegemonia  inglesa era indiscutível, mas sempre houve espaço para outras nações.

Mais ao leste se localizavam as duas últimas áreas. A primeira era a faixa litorânea que se estendia do rio Volta até Badagri, (atual Nigéria), e daí até o cabo de Formosa, zona de grande presença portuguesa.

 

mapa fluxo escravo século XVIII

No conjunto, a África Ocidental voltou a superar a região congo-angolana em número de escravos exportados para as Américas, com participação residual dos africanos provenientes de portos do Índico. A mortalidade média caíra ainda mais em relação ao século anterior, situando-se em torno de 14% por viagem.

O século de apogeu do tráfico  transatlântico, no entanto, seria também o do início do seu fim. As últimas décadas foram marcadas por turbulências que culminaram na eclosão da Revolução Francesa, em 1789, e da Revolução Haitiana de 1791. Os ideais igualitários disseminados a partir da França passavam a questionar a escravidão e encontravam eco  na incômoda pregação dos abolicionistas ingleses e na revolta  dos escravos haitianos. O sistema atlântico começava a fazer água.

fonte: revista História Viva. ano VI. n 66.

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Disputa pela Costa Africana – Fluxo Escravo Século XVII

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O cenário do século XVII era distinto. Outras nações européias passaram  a traficar. Os recém-chegados criaram suas próprias feitorias  e fortes ao longo do litoral, a chave do êxito lusitano. Esses novos  atores agiam nas brechas abertas pelo rompimento do monopólio da presença espanhola no Caribe e na América do Norte.

Vivia-se o período de desenvolvimento das grandes fazendas especializadas na produção de um único produto para exportação, o chamado sistema de plantation. Baseado no trabalho escravo, esse sistema floresceu nas colônias britânicas, holandesas e, principalmente na América portuguesa, que se afirmou como maior produtora mundial de açúcar.

A vitalidade dos engenhos brasileiros fez com que a coroa portuguesa voltasse sua atenção paulatinamente para a colônia americana, em detrimento do comércio com o Oriente. O boom das grandes fazendas aumentou extraordinariamente a demanda por escravos. No século XVII, os europeus importaram quase sete vezes mais africanos do que no século anterior.

Nesse contexto, os holandeses despontaram rapidamente como novos atores de peso no cenário negreiro. Começaram atacando o poderio português na África ao construírem o forte Nassau, na Costa do Ouro, a partir de 1611.

 

Fluxo de escravos 1601-1700

O mesmo ocorreu na Senegâmbia, quando os navegadores dos Países Baixos conseguiram instalar dois fortes na ilha de Goréa, na costa do Senegal. Por fim, em 1637 os holandeses deslocaram os portugueses de Elmina, forte localizado no litoral da atual Gana, obrigando-os a fixar a sua atenção nas baías de Benin e de Biafra.

Enquanto os holandeses moviam seus peões, outras nações européias também passavam a disputar  o controle da costa africana. Os franceses, que já possuíam uma pequena feitoria na região de Ajudá (costa do Benin), expulsaram os holandeses do Senegal na década de 1670.

A Costa do Ouro era palco das mais acirradas disputas entre os europeus. A competição mais duradoura na região dava-se entre ingleses e holandeses. Ao final, os britânicos levaram  a melhor e consolidaram seu poder naquela  zona, além de agirem também em partes do Senegal e Serra Leoa.

A corrida por escravos, no entanto, não se restringia à África Ocidental. O enorme incremento da produção açucareira da América portuguesa fez com que, pela primeira vez, as exportações da região congo-angolana superassem as dos portos do norte. A mortalidade média dos escravos nos navios negreiros caiu substantivamente em relação o século XVI e fixou-se na casa dos 20% por viagem.

fonte: revista História Viva. ano VI. n° 66

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Fluxo Escravo - (1501-1600) (Parte II)

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No século XVI, as taxas de mortalidade nos navios negreiros variavam de acordo com a distância entre o porto de exportação e o de recepção nas Américas. Na média porém, atingiram quase 60%, mais altas do que em qualquer outra época. Para isso contribuíam a relativa precariedade  da tecnologia naval de então e a incipiente estruturação das empresas negreiras.

 

mapa Fluxo de Escravos (1501-1600)

Apenas na segunda metade do século XVI apareceram os primeiros reais competidores dos portugueses, os ingleses, cuja expansão marítima  ocorreu velozmente após a Reforma Anglicana. Seu objetivo maior era o ouro e, tal como ocorrera com os ibéricos, eles começaram a exploração sistemática do litoral, logo  alcançando a baía de Benin. Também traficavam escravos, mas de modo secundário e  quase sempre por meio de pirataria contra naus portuguesas. As incursões dos ingleses se intensificaram a partir de 1570, mas sem se concentrar em pontos fixos da costa.

Os franceses também desempenharam papel secundário no século XVI, e seu tráfico se restringia ao litoral entre os rios Senegal e Gâmbia. Assim como os ingleses, não estavam muito interessados em escravos e tampouco se fixaram permanentemente na costa.

fonte: revista História Viva. ano VI. n° 66. por Manolo Florentino 

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Leia Também: Fluxo Escravo (1501-1600) (Parte I)

Fluxo Escravo (1501-1600) (Parte I)

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Para traficar escravos os portugueses tinham antes que cortejar o soberano local, como o rei do Congo.

 

Gravura, portugueses diante do soberano africano 

Portugueses fazendo reverência ao rei do Congo

Gravura, Johan e Theodore de Bry, ilustração do livro: Índias Orientais, de 1597, National Maritime Museum, Greenwich

A conquista e a colonização da América deram novo impulso ao comércio negreiro, que inicialmente foi canalizado para as colônias de Castela. As plantações surgidas no Caribe e a montagem dos sistemas mineradores no México e nos Andes estimularam o estabelecimento da ligação direta com a África, razão pela qual oito entre dez africanos desembarcaram em portos da América espanhola entre 1501 e 1600.

A colonização da América portuguesa também aumentou a demanda  por escravos no Novo Mundo, apesar de nessa época Lisboa ainda estar mais interessada no comércio com o Oriente.

Embora os traficantes castelhanos estivessem envolvidos no comércio negreiro, sua participação era débil, e em pouco tempo o sistema de asientos se transformou no seu principal meio de obtenção de africanos. Esse era o nome dado a uma permissão que a coroa de Castela  concedia aos seus súditos para comercializar escravos com as colônias portuguesas. Seja para prover sua colônia, seja para atender à demanda do mundo hispano-americano, o predomínio dos traficantes portugueses se intensificou em todo litoral africano.

O principal pólo de exportação de mão-de-obra escrava era a África Ocidental, região que  englobava todo o território compreendido entre os atuais Senegal e Camarões. Essa área era responsável por quase 60% das exportações e, nela, a região da Senegâmbia representava a principal fonte de venda de africanos cativos. Ao mesmo tempo, a região congo-angolana despontava como o segundo celeiro de escravos no continente.

continua no próximo post…

fonte: revista História Viva. ano VI. n° 66. por Manolo Florentino

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A Diáspora africana

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O tráfico negreiro provocou um dos maiores deslocamentos populacionais da história da humanidade. O banco de dados coordenados pelo professor David Eltis, da Universidade de Emory, nos EUA, mostra que, entre os séculos XVI e XIX, mais de 12,5 milhões de africanos foram escravizados e exportados para  a América. Europa e algumas ilhas do oceano Atlântico. Desses, cerca de 10,7 milhões chegaram vivos ao fim da travessia.

Foi no século XV, quando os portugueses abriram caminho para a exploração da costa da África subsaariana, depois de cruzarem o cabo Bojador, em 1434 que tudo começou. Ao longo dos anos seguintes, os navegadores lusitanos avançaram cada vez mais rumo ao sul, até atingirem na década de 1470, a baía de Biafra, na região dos atuais Camarões e Nigéria. Nessa época, a mão-de-obra africana ainda não era tão cobiçada. O principal objetivo dos europeus era buscar terras, mercados, ouro e uma rota marítima alternativa para o Oriente.

Foi só após a conquista das ilhas do Atlântico que o trabalho forçado  de africanos começou a se difundir. Em São Tomé foi implantado , pela primeira vez, o modelo de exploração mercantilista que mais tarde vingaria em boa parte das Américas, baseado no tripé grande propriedade, monocultivo e trabalho escravo. Essas ilhas e, em menor escala, o próprio continente europeu, eram  os principais pólos de uma fraca demanda por africanos até  princípios do século XVI.

O pioneirismo rendeu aos portugueses um predomínio quase absoluto nos primórdios do tráfico. O primeiro concorrente foi o reino de Castela, atraído  pelo comércio de escravos e pelo ouro, que recorreu ao papa para reivindicar o direito de também  fazer negócios na costa africana. Sua santidade, contudo, deu ganho de causa aos portugueses, e confirmou a primazia dessa nação no continente.

Os portugueses permaneceriam senhores incontestes da costa ao longo de todo século XVI, quando a conquista da América aumentou significativamente a demanda por escravos. Essa situação começou a mudar no século XVII, com o surgimento da concorrência de franceses e ingleses. Por essa época, o tráfico transatlântico já havia se transformado em uma indústria, que iria crescer cada vez mais, até atingir o ápice no século XVIII. Seu declínio começaria no século XIX, com a proibição do trânsito de navios negreiros no Atlântico.

Escravos exportados da África

  • Século XVI           277.505
  • Século XVII        1.875.631
  • Século XVIII       6.494.619
  • Século XIX         3.873,582

     O total dessas exportações ou tráfico é de 12.521.337 escravos, e o desembarque foi feito em várias regiões tais como:

  • Brasil                                     4.864.374
  • Caribe Britânico                      2.318.252
  • América Espanhola                  1.292.912
  • Caribe Francês                        1.120.215
  • América Holandesa                    444.728
  • América do Norte                       388.746
  • Caribe Dinamarquês                   108.998
  • Europa                                        17.722
  • África                                        155.569

Esses número somam um total de 10.711.516, a diferença encontrada entre o número de exportações e o de desembarque é a de escravos mortos durante a viagem. São 1.809.821 pessoas mortas pelos mais variados motivos.

 Manolo Florentino

fonte:revista História Viva. ano VI. n° 66

Diáspora

O termo diáspora define o deslocamento, normalmente forçado ou incentivado, de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para várias áreas de acolhimento. O termo "diáspora" é usado com muita frequência para fazer referência à dispersão do povo hebreu no mundo antigo, a partir do exílio na Babilônia no século VI a.C. e, especialmente, depois da destruição de Jerusalém em 135 d.C.

Em termos gerais, diáspora pode significar a dispersão de qualquer povo ou etnia pelo mundo.

fonte: Wikipédia

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A Revolta dos Malês

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Dentre as diversas rebeliões lideradas por africanos, destaca-se a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, Bahia, em 1835. O termo malês era usado para designar escravos e forros muçulmanos, isto é,  seguidores do islamismo. Muitos desses rebeldes eram negros de ganho, com maior liberdade de circular pela cidade .

Por serem em número reduzido, os malês se uniram principalmente  a escravos e forros que não eram muçulmanos, principalmente das etnias Ioruba, Hauçá, Jeje e Tapa. A revolta começou no dia 24 de janeiro de 1835, data do encerramento do ramadã, o mês de jejum dos muçulmanos. Os malês acreditavam que naquele dia Alá estaria controlando os espíritos do mal e reorganizando o mundo – momento  ideal para a rebelião.

De acordo com o plano, os revoltosos sairiam da Vitória (atual bairro da Barra, em Salvador) e tomariam de surpresa a cadeia pública, o palácio do governo e alguns quartéis.

Por mais de três horas, cerca de seiscentos negros lutaram contra as forças policiais, mas foram vencidos. Centenas de rebeldes morreram nos confrontos ou acabaram presos; pelo menos cinco dos principais líderes foram condenados à morte.

De acordo com o historiador João José Reis, boatos de revoltas inspiradas no exemplo baiano fizeram o governo brasileiro tomar medidas firmes visando controlar a população escrava.

Uma dessas medidas foi a pena de morte para crimes cometidos por escravos contra senhores e feitores. Outras regiões do Brasil, temendo revoltas semelhantes, proibiram a importação de escravos vindos da Bahia. Em Boston, nos Estados Unidos, o jornal The Liberator notificou o levante como parte de uma campanha abolicionista. No entanto, a abolição dos escravos só se concretiza em 1888.

Mulheres Negras

Uma mulher teve papel importante na Revolta dos Malês. Sua casa tornou-se quartel-general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX. Segundo alguns autores, Luiza Mahin veio para o Brasil como escrava; segundo outros era natural da Bahia, tendo nascido livre por volta de 1812.

Em 1830 deu à luz à um filho, Luiz Gama, que mais tarde se tonaria poeta e abolicionista e escreveria as seguintes palavras sobre sua mãe: “Sou filho natural de uma negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã”.

adaptado de CARNEIRO, Sueli. Mulheres negras: lembrando nossas pioneiras. Articulação de mulheres negras brasileiras. www.mulheresnegras.org.br.htm> acesso.20/2/2006.

O quilombo dos Palmares

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Contra a escravidão e os maus-tratos, os negros rebelavam-se e fugiam das senzalas, tentando organizar-se para sobreviver nas matas e formando aglomerados, conhecidos como quilombos. O mais famoso foi o quilombo dos Palmares, por ter sido o mais populoso e duradouro.

Palmares era uma uma confederação de pequenas comunidades de quilombolas (habitantes dos quilombos), conhecidas como mocambos. O local era protegido por um sistema de fortificação. O mocambo do Macaco era a fortificação mais importante, podendo ser considerada a capital do quilombo dos Palmares. Esse foi o maior  Estado negro da América, onde dezenas de milhares de negros viveram e resistiram as assédio dos brancos por cerca de 65 anos.

A vida em Palmares

Tudo indica que desde o princípio do século XVII já havia na região um aglomerados de negros fugidos das senzalas. Mas o crescimento dos quilombos deu-se com a invasão holandesa, pois os engenhos foram em parte destruídos pela guerra e os negros aproveitaram a confusão para fugir.

Os negros iam chegando e se organizando em mocambos. Caçavam, pescavam e plantavam tudo de necessitavam: milho, mandioca, batata-doce. Essa abundância alimentar das comunidades negras contrastava com miséria da população do litoral.

Os mocambos eram circundados por uma paliçada como proteção a um eventual ataque. O número de habitantes do quilombo dos Palmares no seu auge foi calculado entre 20 e 30 mil negros de várias origens. Além dos negros, o quilombo abrigava também índios fugidos da escravidão e homens livres brancos e pobres.

Politicamente, os quilombolas organizavam-se num tipo de “Estado” baseado na comunidade tribal. Elegiam um “rei”, cujo requisito era coragem e a capacidade de liderança. O primeiro “rei” foi o famoso Ganga-Zumba, que, ao morrer, foi substituído por outro, não menos famoso: Zumbi.

Zumbi dos Palmares

A existência desse “Estado” negro formado ´por escravos fugidos era uma ameaça para a estrutura da ordem colonial e escravocrata. Por essa razão, os brancos, senhores de engenho e as autoridades da metrópole empenharam-se na sua destruição.

Guerra ao quilombo dos Palmares

Os primeiros ataques ao quilombo foram feitos pelos próprios holandeses, que pretendiam recuperar a força de trabalho para pôr em funcionamento os engenhos. Depois do fim do domínio holandês, os colonos luso-brasileiros organizaram em 1667, uma grande operação, comandada por Zenóbio Accioly Vasconcelos, mas que não obteve sucesso.

Alguns centros açucareiros começaram a empregar forças mercenárias para atacar Palmares. Foi nessa época que bandeirantes paulistas foram chamados para participar de incursões contra o quilombo. Os negros, para se defender, usavam a tática de guerrilha, mudando constantemente os mocambos de lugar, o que dificultava muito os ataques  dos brancos. Como as operações militares contra o quilombo não davam resultados, o governador de Pernambuco estabeleceu, em 1678, um acordo de trégua com Ganga-Zumba. Pela primeira vez os brancos foram obrigados a negociar com os negros.

Mas a trégua foi logo rompida e os combates recomeçaram. Os negros quilombolas, agora liderados por Zumbi dos Palmares, enfrentaram uma guerra total.

O governador de Pernambuco contratou o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho para destruir Palmares. Famoso e experiente na luta contra os índios resistentes à escravidão, ele chegou a Palmares por volta de 1692 com quase mil homens, entre brancos e índios.

Iniciados os combates, os paulistas encontraram tenaz resistência por parte dos negros, comandados  por Zumbi, e foram obrigados a uma retirada forçada.

Em fins de 1694, com quase 3 mil homens e artilharia pesada, Domingos Jorge Velho iniciou outro poderoso ataque a Palmares. A cerca defensiva, de mais de cinco quilômetros de extensão, impedia o avanço dos homens do bandeirante paulista. Mas a munição dos quilombolas esgotou-se e a resistência não durou muito. Mesmo assim, pequenos grupos sobreviveram no mato por mais algum tempo.

Após a morte de Zumbi, é possível que parte do quilombo dos Palmares tenha sido reconstruída, existindo até 1740. Séculos depois, em 1978, o Movimento Negro Unificado transformou a data oficial da morte de Zumbi, 20 de novembro, em Dia Nacional da Consciência Negra.

Atualmente, cerca de 2 milhões de afro-descendentes vivem em áreas remanescentes de quilombos. Eles lutam para que o Estado lhes reconheça o direito sobre as terras ocupadas por seus familiares há várias gerações.

PEDRO, Antônio. História da civilização ocidental: ensino médio:volume único.

A sociedade colonial

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A sociedade colonial brasileira sofreu poucas modificações estruturais ao longo dos seus trezentos anos.

Nesse largo período a forma de produção da riqueza da sociedade como um todo manteve-se baseada no trabalho escravo. Em outras palavras, as condições sociais foram determinadas pela forma de trabalho, que praticamente não se modificou até a segunda metade do século XIX.

A vida no engenho

O engenho estava localizado na zona litorânea. Era ali  que se passava toda a vida da colônia. O proprietário, senhor de engenho, era a autoridade máxima, pois detinha poder praticamente absoluto sobre todos os moradores da sua propriedade. Todos se submetiam à autoridade, inclusive os poucos homens livres, como os mascates (vendedor ambulantes), pois o engenho era o seu grande comprador.

   Senhor de Engenho

Outros homens livres que também integravam a sociedade colonial eram lavradores que produziam cana-de-açúcar em terras arrendadas pelos senhores. Esses lavradores, apesar de dependentes dos senhores, chegavam também a possuir escravos.

A camada dominante da sociedade colonial repudiava o trabalho manual, atividade quase exclusiva de escravos. O cronista Luís Vilhena comenta essa atitude num texto do começo do século XIX;

Porque não há de cavar no Brasil aquele que em Portugal só vivia de sua enxada? (…) Porque há de querer mandar quem nada mais soube que obedecer? Porque há de ostentar de nobre quem sempre foi plebeu?

A casa-grande

Nas terras do engenho, o senhor mandava erguer um solar para sua moradia. Era a chamada casa-grande. Na casa-grande o senhor estabelecia com os outros membros da família e demais moradores ligados ao engenho uma relação patriarcal. O pátrio poder, isto é, o poder dos senhores patriarcais, era ilimitado, caracterizando uma verdadeira tirania. Tudo era decidido por ele, o senhor de engenho, que tinha no seu primogênito o único herdeiro desse poder.

Os homens livres que viviam nas dependências e imediações da casa-grande eram os agregados. Sem papel muito definido na sociedade colonial, sua relação de subordinação ao senhor era uma garantia de sobrevivência.

Por não ter nenhuma herança de sangue, que caracterizava a nobreza européia, os senhores e suas famílias ostentavam um luxo que muitas vezes não condizia com suas condições econômicas. Era uma forma de manter uma posição de destaque nessa sociedade.

Os escravos domésticos que viviam em dependências secundárias da casa-grande, eram as mucamas (jovens escravas), criados, moleques de recado etc. As mulheres dos senhores de engenho, quando saíam, faziam-se acompanhar de um pequeno séquito de escravos e costumavam portar jóias para ostentar riqueza.

A Senzala

Num barracão próximo à casa-grande, localizava-se a moradia dos negros escravizados, a senzala. Na senzala os negros dormiam amontoados e sofriam os mais variados maus-tratos. A humilhação e o castigo corporal tinham por objetivo destruir a identidade e a personalidade dos negros, facilitando assim a sua submissão e o aproveitamento máximo da sua força de trabalho.

O açoite pretendia fazer com que o negro se auto-representasse como vadio, traiçoeiro, maldoso e que pelas diferenças raciais, em que a cor da pele estabelecia uma rígida hierarquia na sociedade: o branco era o superior; logo abaixo vinha o moreno, que era melhor que o mulato; em último estava o negro, que era inferior a todos.

Essa situação de inferioridade a que os brancos relegavam os negros era reforçada pela idéia negativa que se tinha das atividades manuais. De modo geral, quem sofria mais com esse tipo de discriminação eram os escravos do eito, isto é, os que trabalhavam direto na lavoura.

A capela e a vila

Também a vida religiosa no Brasil colônia se desenvolvia principalmente no interior dos engenhos, em capelas e pequenas igrejas de fé católica. Essas construções tinham uma função social, pois era nas ocasiões de festas religiosas que os membros da sociedade tinham a oportunidade de se encontrar. De modo geral, o clero colonial era subordinado aos interesses dos senhores de engenho.

Com exceção de alguns centros, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro, praticamente não havia vida urbana na colônia. As vilas eram centros de administração portuguesa e colonial.

 

Mitos sobre a escravidão no Brasil

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Durante o século XIX, muitos viajantes europeus escreveram relatos sobre a vida cotidiana nas cidades brasileiras, marcadas pela presença maciça de negros escravizados e forros (libertos da escravidão). A visão desses autores contribui para difundir diversos mitos sobre a escravidão.

Um deles foi a idéia de que os senhores compravam escravos de diferentes etnias para evitar que se comunicassem e organizassem rebeliões, como escreveu o pastor Robert Walsh, que visitou a cidade de São João del Rey em 1828.

De acordo com o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esse mito surgiu porque os europeus imaginavam que a estratégia do senhor de escravos seria a mesma dos senhores da Antiguidade romana, que misturavam escravos de línguas diferentes para melhor controla-los.

Segundo Florentino, os senhores do século XVI não podiam escolher de onde vinham seus escravos que sobreviviam. Quanto maior a distância do local de origem, menor a quantidade de escravos sobreviviam à viagem. Isso explica o grande número da Bantos no Rio de Janeiro e de africanos originários do Sudão e do Golfo da Guiné na Bahia e no norte do Brasil. 

Banto: Indivíduo dos bantos, um dos povos que falam qualquer das centenas de línguas bantas, grande conjunto de línguas do grupo nigero-congolês oriental faladas na África.

Famílias na Senzala

Outro mito bastante divulgado é a crença de que raramente os africanos escravizados tinham família e, quando tinham, isso era estratégia do senhor para reduzir as rebeliões. A família serviria para garantir a paz entre escravos e senhores, ajudando a enraizar os escravos no local que habitavam.

Muitos escravos viviam em senzalas coletivas ou na casa dos senhores, mas era comum que escravos casados tivessem moradia separada. Alguns tinham acesso a um pedaço de terra e plantavam alimentos para o consumo da família. Viviam em pequenas casas baixas e sem janelas, em cujo interior havia um fogo sempre aceso.

De acordo com o historiador Robert Slenes, da Unicamp, Sâo Paulo, esse mesmo padrão de moradia podia ser encontrado na África central, de onde veio o maior número de escravos para o Brasil. O fogo sempre aceso representava a ligação com os lares dos antepassados, indicando que mesmo vivendo no Brasil a família cultuava sua origem africana. Para Slenes, isso demonstra que a família foi um dos elementos que contribuíram para a formação de um comunidade de escravos em oposição aos senhores. Assim, a família não seria responsável pela manutenção do escravismo, mas sim uma ameaça a ele.

Do escambo à escravidão

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A primeira forma de trabalho estabelecida pelos portugueses e franceses na América foi o escambo, que significa ‘troca’ ou ‘permuta’.  Nesse caso, escambo consistia em trocar o trabalho dos indígenas por mercadorias de pouco valor para os europeus, como miçangas, espelhos e machados.

Na cultura dos indígenas não havia interesse em acumular mercadoria nem riquezas. Para os indígenas não fazia sentido trabalhar para acumular vários machados ou espelhos. Cada indivíduo trabalhava até conseguir o que desejava e então se recusava a continuar trabalhando.

A maioria dos europeus do século XVI era incapaz de entender essa atitude. Como o sistema de escambo não funcionou de acordo com os interesses dos europeus, eles passaram a escravizar os indígenas.

O mito da Indolência (preguiça) indígena

Desde o início da colonização, existe na América uma visão preconceituosa que caracteriza os indígenas como preguiçosos ou incapazes para o trabalho. Mas é uma atitude duplamente preconceituosa atribuir o estabelecimento da escravidão africana ao fato de o indígena “não ser bastante eficiente na dura faina” (trabalho), como escreveu Joaquim Silva em um livro didático de 1959.

Significa dizer, numa única frase, que os indígenas são preguiçosos e que africanos se destinam ao trabalho pesado. É óbvio que os indígenas não gostavam de trabalhar como escravos. Nem eles, nem os africanos, nem ninguém.

Há melhores explicações para a implantação da escravidão africana na América portuguesa. Uma delas é a influência dos missionários católicos, que tinham interesse em utilizar o trabalho indígena nas missões jesuíticas e acreditavam que os africanos estavam destinados à escravidão. Por isso, a escravidão indígena acabou proibida pelo Estado português.

Outra explicação é o interesse dos traficantes de escravos africanos: com a proibição de escravizar indígenas, os colonos portugueses se tornaram importantes clientes dos traficantes, proporcionando a eles grandes lucros. 

O Tráfico Negreiro

O comércio de escravos africanos era controlado principalmente por mercadores portugueses, ingleses e holandeses. A aquisição de escravos na África ocorria de várias maneiras. Inicialmente, os mercadores atacavam aldeias próximas da costa africana. Mais tarde, fizeram alianças com chefes africanos, que capturavam homens, mulheres e crianças no interior do continente em troca de mercadorias como cavalos, tecidos, objetos de cobre, fumo e aguardente.Os africanos escravizados eram embarcados em navios de pequeno porte para a América. Cada embarcação transportava cerca de 400 pessoas, acorrentadas umas às outras para evitar rebeliões.

O tráfico de escravos para a colônia crescia na mesma medida que se expandia a cultura da cana-de-açúcar. O porto de Luanda, em Angola, transformou-se no mais importante ponto de embarque de negros para o Brasil. A importância desse mercado fornecedor de mão-de-obra pode ser avaliada pelo seguinte dado: até 1680 havia passado pelo porto de Luanda mais de um milhão de escravos.

A viagem dos navios negreiros era um verdadeiro inferno para os escravos. Amontoados pelos traficantes nos porões, mal tinham condições de respirar. Quanto maior a quantidade de escravos transportados, maior o lucro, apesar de pouco mais da metade sobreviver à viagem.

Quando chegavam aos principais portos do Brasil, como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, os africanos eram expostos nos mercados à disposição dos senhores que precisavam da “mercadoria”. Veja o que diz um cronista:

Os escravos eram colocados nas ruas diante das portas dos proprietários (…) deitados ou sentados (…) em número que atingia, às vezes duzentos ou trezentos. (…) Seu alimento é carne salgada, farinha de mandioca e às vezes banana-da-terra (…). À noite os escravos são conduzidos a um ou mais armazéns e o condutor fica em pé, contando-os à medida que eles passam. (…) O comprador dá a cada um  dos escravos recém-comprados um grande pano (…) e um chapéu de palha e leva-os o mais depressa possível para a sua fazenda.

KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. São Paulo, Nacional, 1942.

Além da violência física, os africanos sofriam uma profunda agressão à sua cultura. Arrancados de seu meio natural e social, atirados em uma terra de língua, religião e hábitos desconhecidos, os africanos enfrentavam  todas as dificuldades para manter sua identidade cultural. Conservar suas tradições era uma forma de resistir à violência e à dominação dos brancos.

Nas grandes fazendas a maioria dos escravos recebia uma cuia de feijão e uma porção de farinha de mandioca ou de milho. Vez por outra recebia também  toucinho, rapadura e charque (carne seca).

De modo geral, a alimentação dos escravizados era pouca e de má qualidade, o que acarretava sérios problemas de saúde e envelhecimento precoce. Muitos eram descritos como tendo 60 anos de idade, quando na verdade tinham entre 35 e 40 anos.

Os escravizados eram vigiados de perto por feitores, que, quase sempre, os castigavam por qualquer motivo, como por exemplo, fazer uma pequena pausa para descanso ou se distrair no trabalho. Os castigos eram muitos: chicotadas, palmatórias e outros ainda mais cruéis. Os fugitivos, eram marcados com ferro em brasa com a letra F  (fujão).

A violência  contra os escravos

 

 ilustração: BOULOS JUNIOR,Alfredo.História Sociedade & Cidadania. sétima série. p. 61

Vários eram os instrumentos utilizados para castigar os escravos por alguma falta cometida. Entre eles estavam:

A palmatória que provocava inchaço e dores nas mãos; o colar de ferro, ou gargalheira, era colocado em volta do pescoço do escravizado e ligava-se a correntes para prende-lo; a máscara de flandres, feita de zinco ou folha de flandres, permitia ao cativo enxergar e respirar, sem conseguir levar alimento à boca. Segundo a tradição popular, a máscara de flandres foi usada para castigar a escrava Anastácia, cuja beleza e altivez provocavam ciúme e a cólera de sua senhora.

Resistência

Tanto indígenas quanto africanos resistiam à escravidão durante todo o tempo em que ela existiu no Brasil, ou seja, por mais de trezentos anos. Para escapar dela, os indígenas entraram em guerra contra os colonos portugueses. Tanto indígenas como africanos fugiam constantemente do cativeiro. Muitos escravos promoviam rebeliões que, quando vitoriosas, resultavam em fugas em massa.

Os escravos fugidos procuravam se distanciar das regiões colonizadas pelos europeus, estabelecendo sociedades que na América portuguesa ficaram conhecidas como quilombos. Na América espanhola, eram  chamadas de palenques ou cumbes.

Além das fugas e dos quilombos, houve outras formas de resistência, como no caso dos escravos do Engenho Santana, em Ilhéus, Bahia. Por volta de 1789, depois de dois anos vivendo num mocambo (choça), eles propuseram um acordo a seu antigo senhor, exigindo certas condições para  voltar a trabalhar para ele.

Carta dos ex-escravos do Engenho Santana ao seu antigo senhor, c.1789

Meu Senhor, nós  queremos  paz e não queremos guerra; se meu senhor também quiser nossa paz há de ser nessa conformidade, se quiser estar pelo que nós quisermos a saber:

Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e sábado para trabalharmos para nós não tirando um destes dias por causa de dia santo.

Para podermos viver nos há de dar rede, tarrafa e canoas. […]

Faça uma barca grande para quando for para Bahia nós metermos as nossas cargas para não pegarmos frete. […]

Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com nossa aprovação. […]

O canavial de Jabirú o iremos aproveitar por esta vez, e depois há de ficar para pasto porque não podemos andar tirando canas por entre mangues.

Poderemos plantar nosso arroz onde quisermos, e em qualquer brejo sem que para isso peçamos licença, e poderemos cada um tirar jacarandás ou qualquer pau sem darmos parte para isso.

A estar por todos os artigos acima, […] estamos prontos para o servirmos como dantes, porque não queremos seguir os maus costumes dos mais Engenhos.

Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença.

REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.123-4

fonte:BOULOS JUNIOR, Alfredo.coleção: História Sociedade & Cidadania;CARDOSO, Oldimar, coleção: Tudo é História; PEDRO,Antônio. História da civilização ocidental.

Escravidão - Cronologia

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Era um sonho dantesco… o tombadilho/ Que das Luzernas avermelha o brilho/ Em sangue a se banhar/ Tinir de ferros, estalar do açoite/ Legiões de homens desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…”

Esses versos do poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves, falam de uma época em que milhões de seres humanos eram capturados na África e trazidos à América para trabalhar como escravos. O poema expressa a indignação das pessoas que, no século XIX, lutaram contra a escravidão no Brasil.

  • 1597 Data provável da formação do quilombo dos Palmares, em Pernambuco.
  • 1678 Ganga Zumba, rei de Palmares, é assassinado depois de fazer um acordo de paz com o governo da capitania de Pernambuco. Os palmarinos escolhem Zumbi o novo rei de Palmares
  • 1695 Expedição chefiada pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho mata Zumbi.
  • 1740 Data provável da destruição do quilombo dos Palmares.
  • 1835 Revolta dos Males, em Salvador.
  • 1978 Movimento Negro Unificado transforma a data da morte de Zumbi, 20 de novembro, em Dia Nacional da Consciência Negra.

Veja vídeo do poema Com imagens do filme Amistad, realizado por Steven Spielberg. O “Navio Negreiro”, de Castro Alves, do século XIX, na voz de Paulo Autran.

 Antônio de Castro Alves (1847-1871). Poeta baiano, Ainda muito jovem, ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Participou intensamente do movimento  abolicionista, que abalou o Império na segunda metade do século XIX. Foi um dos expoentes do Romantismo no Brasil. Entre seus poemas mais conhecidos estão “Os escravos”, “Vozes d’África” e “Navio Negreiro”. Castro Alves morreu aos 24 anos de idade.

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Os Racionais MC’s escreveram o rap Voz Ativa, século XX e identificam os problemas que os negros brasileiros enfrentam nos dias de hoje.

Voz Ativa

Mais da metade do país é negra e se esquece

Que tem acesso apenas ao resto que ele oferece […]

Modelos brancas no destaque

As negras onde estão?

Desfilam no chão, em segundo plano […]

Brancos em cima, negros em baixo

Ainda é normal, natural

400 anos depois, 1992, tudo igual

Bem- vindos ao Brasil Colonial.

Escolha o seu caminho. Racionais MC’s. Zimbabwe Records, 1992.

CARDOSO, Oldimar. coleção Tudo é História. ensino fundamental

Mesmo depois de tantos anos, os negros do Brasil e do mundo enfrentam muitas dificuldades.

Os direitos e deveres dos povos de todo mundo devem ser preservados, somos todos iguais perante Deus.

Temos o dever de rever nossos conceitos e deixar de ter preconceito.

 

 

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