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Heresias, Inquisição, Concílio de Trento

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Para lutar contra as heresias, os papas haviam criado, no século XIII, a Inquisição, conhecida oficialmente com Tribunal do Santo Ofício. Mas esta instituição encontrava-se em decadência. Era muito ativa na Espanha porque lá era claramente um instrumento do poder real. Devido aos progressos da Reforma, o cardeal italiano Caraffa teve a idéia de restaurar a Inquisição sob sua forma primitiva, isto é, coloca-la sob a autoridade da Santa Sé. Em 1542, o papa Paulo III criou uma congregação de seis cardeais encarregados de abrir processos contra todos aqueles que, sendo católicos, desviavam-se das doutrinas da Igreja. Os condenados seriam "relaxados ao braço secular", uma expressão que significava que os condenados seriam executados pela justiça comum. Quando o cardeal Caraffa tornou-se papa, sob  o nome de papa Paulo IV (1555-1559), a Inquisição tornou-se extremamente rigorosa, sobretudo na Itália.

Nessa época estabelecia-se um catálogo de livros proibidos aos católicos, por ordem do papa. Esse catálogo continha versões da Bíblia não autorizadas pela Igreja e obras que pudessem levar à heresia, ao ateísmo, ou contrariar a moral católica. O primeiro Índice dos Livros Proibidos (Index Librorum Probibitorum) foi publicado pelo papa Paulo IV em 1559. O papa Pio V (1566-1572) criou uma Congregação do Index em 1571, encarregada de estabelecer e revisar periodicamente a lista de obras proibidas. Esta congregação foi suprimida pelo papa Benedito XV em 1917, tendo suas atribuições transferidas para o Tribunal do Santo Ofício. O "Índice dos Livros Proibidos" foi extinto por ocasião do Concílio Vaticano II (1962-1965), sob o pontificado do papa João XXIII.

 Diario del Concilio de Trento de Angelo Massarelli (Trento, febrero de 1545 – septiembre de 1551)
ASV, Conc. Trid. 91, ff. 50v-51r

Devido às crises políticas e guerras do período, o Concílio de Trento abriu seus trabalhos em 1545, sofreu várias interrupções e só terminou em 1563. Foi convocado pelo papa Paulo III. Esperava-se inicialmente chegar a um acordo com as igrejas protestantes; entretanto, a divisão tinha chegado a uma situação sem retorno. As duas principais tarefas do concílio foram precisar os dogmas tradicionais do catolicismo, para se opor aos dogmas do protestantismo, e fazer uma reforma interna na própria Igreja Católica, para pôr fim aos abusos que deram motivo à Reforma.

Nas questões de dogma, o Concílio não fez qualquer concessão aos protestantes:

    • Mantinha a necessidade de fazer apelo, ao lado da Bíblia, à tradição fixada pelos papas e pelos concílios.
    • Considerava-se como a única Bíblia autêntica a Vulgata, ou seja, a sua tradução feita para o latim por São Jerônimo por volta do ano 400.
    • Na questão da salvação, todas as doutrinas protestantes eram rejeitadas.
    • Mantinham-se todos os sacramentos, a crença no purgatório, a invocação à Virgem aos santos, às imagens e às relíquias; confirmada a presença de Cristo na eucaristia.
    • Era confirmada a necessidade de obediência ao papa.

Em matéria de disciplina, o Concílio preocupou-se em eliminar os abusos mais graves, mas manteve as práticas que os protestantes reprovavam. Ficou estabelecido:

    • O uso do latim para ofícios religiosos e entre os sacerdotes;
    • O celibato clerical;
    • A proibição de acumular cargos eclesiásticos;
    • Os membros do clero deveriam ter uma vida exemplar;
    • estabeleciam-se idades mínimas para ser padre e bispo;
    • Deveriam ser criados seminários para a formação do clero;
    • A conveniência de cada paróquia manter ensino elementar para as crianças.

Em 1560, quando ocorriam as últimas reuniões do Concílio de Trento, o recuo da Igreja Católica foi marcante. Os estados escandinavos, Escócia e Inglaterra, eram protestantes. A Suíça, Alemanha e Países Baixos dividiam-se entre católicos e protestantes. A França estava mergulhada nas Guerras de Religião. A contra-reforma conseguiu manter a unidade do que restara da Igreja Católica em torno da autoridade do papa.

Continuava o conflito entre o papa e os estados, pois a doutrina da Igreja determinava a subordinação dos príncipes à autoridade do papa. Os que defendiam a autoridade papal foram chamados de "ultramontanos", e os que defendiam a autoridade do rei, chamados de "realistas".

    • Dogma: Cada um dos pontos fundamentais e indiscutíveis de uma doutrina religiosa.
    • Vulgata: Versão latina da Bíblia, feita no século IV sob a supervisão de São Jerônimo e oficializada pela Igreja Católica

fonte: apostilas ETAPA

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Leia Também:   A Inquisição

Uma eleição Papal: O Relato de Pio II

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Apresentação do Personagem

Enéias Sílvio Piccolomini, pertencente a uma das mais nobres famílias de Siena, Itália, é uma das grandes figuras do Renascimento. Nascido em 1405, teve uma formação de humanista, foi secretário de três papas e do imperador Frederico III, diplomata e prelado antes de sua elevação ao trono papal em 1458. Juntamente com interesses em várias áreas - gostava da natureza, de esportes, viagens, poesias, diplomacia - combinou-os com uma grande auto-estima e grande vaidade. Foi autor de muitas obras, mas a mais importante do papa humanista foram seus Comentários, nos quais registrou os acontecimentos de seu pontificado. É um dos mais brilhantes documentos do período, não só como expressão de uma personalidade significativa daquela época, mas uma crônica dos principais acontecimentos do período.Escreve em terceira pessoa, o que durante séculos provocou confusão em relação à identidade do autor da obra, até que o grande historiador dos papas, Ludwig von Pastor, concluiu pela autoria do próprio Enéias Sílvio. O trecho que se segue dos Comentários é um relato de sua eleição como papa, revelando os bastidores de um conclave de cardeais para eleger um papa. Este conclave contou com dezoito cardeais, e para ser eleito papa era necessário dispor de pelo menos dois terços dos votos do colégio de cardeais. No caso, portanto, eram necessários doze votos para se eleger um papa. O conclave durou quatro dias, do dia 16 ao dia 19 de agosto de 1458. Pio II governou a Igreja de 19/08/1458 a 15/08/1464, quando morreu.

Conclave

O conclave realizou-se no palácio apostólico da Basílica de São Pedro (Roma), na qual dois vestíbulos e duas capelas foram especialmente separados para este fim. Na capela maior foram construídos aposentos pequenos(celas) nos quais os cardeais poderiam comer e dormir; a capela menor, chamada Capela de São Nicolau, foi reservada para discussões e eleição do papa. Os vestíbulos eram lugares onde os cardeais poderiam andar livremente. No dia de sua entrada nada foi feito sobre a eleição. No dia seguinte foram anunciadas algumas regras que todos concordaram que deveriam ser obedecidas pelo novo papa, e cada um jurou cumpri-las, caso a escolha recaísse nele. No terceiro dia após a missa, quando vieram ao escrutínio, descobriu-se que Filipe, cardeal de Bolonha, e Enéias Sílvio, cardeal de Siena, tinham um número igual de votos, cinco cada um. Ninguém mais tinha além de três votos. Naquela ocasião, seja por estratégia ou por não querer, ninguém votou em Guilherme, cardeal de Rouen. Os cardeais estavam acostumados, após o resultado do escrutínio, a sentar e conversar juntos no caso de que alguém quisesse mudar de opinião e transferir o voto que havia dado para outro candidato (um método chamado "por cessão", ou seja, o cardeal "cedia" seu voto a outro candidato), pois desta maneira poderiam chegar a um acordo mais facilmente. Este procedimento foi omitido após o primeiro escrutínio em virtude da oposição daqueles que não receberam sequer um voto e agora não poderiam ser candidatos "por cessão". Reuniram-se para o almoço e depois ocorreram muitas conferências particulares. Os membros mais ricos e mais influentes do colégio de cardeais chamaram os demais e procuraram ganhar o papado para eles próprios ou seus amigos. Imploravam, prometiam, ameaçavam, e alguns, vergonhosamente, deixando de lado toda a decência, insistiam em pedir em causa própria, proclamando que o papado era seu por direito.

Escrutínio: Ação de escrutinar, votação em uma, apuração de votos que entram na urna, urna em que os votos são recolhidos, exame minucioso.

Prelado: Título honorífico privativo de certas dignidades eclesiásticas, tais como bispos arcebispos e outros.

Leia também: O Poder da Igreja Católica na Idade Média

(Enéias Sílvio Piccolomini, Comentários, 1584) apostilas ETAPA 

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O Poder na Igreja Católica na Idade Média

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A instituição dominante na Europa Ocidental, durante os séculos em que a civilização medieval alcançou seu apogeu, foi a Igreja Católica Romana. Embora não tenha conseguido o controle total sobre a vida das pessoas devido à resistência determinada dos poderes leigos, a Igreja, não obstante, exercia uma influência dominante. Era encarregada de muitas funções que o Estado Moderno considera como sua atribuição.

A ascensão da Igreja em sua posição dominante cobriu um período de muitos séculos. O caminho para sua grandeza foi aberto quando o imperador Constantino, com sua conversão, tornou o cristianismo a religião oficial do Império Romano. A partir de então, a Igreja cresceu rapidamente numa organização que abraçava a maior parte da Europa, partes do norte da África e o Oriente Próximo. Mas, gradualmente, apareceram diferenças entre as igrejas oriental e ocidental, resultando na divisão da Igreja em duas partes: a Igreja Ortodoxa Oriental, com seu centro em Constantinopla, e a Igreja Católica Romana, que tinha no bispado em Roma seu foco principal. Nas províncias orientais, onde a cristandade se originou, a Igreja ficou sob controle do Estado, enquanto na Europa Ocidental a Igreja Católica Romana subordinou o Estado a seus interesses.

A fonte da influência e prestígio da Igreja Católica Romana foi a missão espiritual, que era geralmente vista como superior às questões temporais. Para reafirmar que a missão da Igreja era algo infinitamente superior às questões mundanas, os escritores da Igreja repetidamente faziam referência à afirmação atribuída a Jesus. "Meu reino não é deste mundo". O assunto de importância sem rival era obter a salvação, ou seja, a glória eterna na vida futura. A tarefa de trazer a salvação para a humanidade era um monopólio da Igreja. De acordo com os escritores eclesiásticos, a Igreja era a única depositária na Terra da graça divina que é necessária para a salvação, logo, não havia salvação fora da Igreja. Porém a Igreja não se esforçava para conseguir seus propósitos por si mesma. Alistava todas as atividades no preenchimento de sua missão, determinando a cada um, certo dever específico. Assim, a vida como um todo estava intimamente ligada às finalidades da Igreja. A abrangência da teoria eclesiástica não deixava qualquer espaço na ordem estabelecida para valores ou atividades que fossem, de alguma maneira, contrários ou inimigos dos altos propósitos da Igreja.

Devido ao fato de os ensinamentos da Igreja serem geralmente aceitos na Europa Ocidental após a conversão dos bárbaros, havia pouca resistência ao estabelecimento do controle eclesiástico. Este controle fez da Igreja a mais poderosa força que moldou a civilização medieval, que alcançou seu maior desenvolvimento nos séculos XII e XIII. Era uma civilização que, em teoria e na realidade, representava uma síntese dos mundos terreno e espiritual. Foi dado ao secular uma dupla dimensão, terrena e extraterrena. Filosofia, ciência natural, literatura, drama, música, pintura, escultura e arquitetura tornaram-se departamentos da Igreja. A educação também foi adaptada a seus fins. A Igreja esforçou-se também para incluir a economia na esfera eclesiástica. Promulgando a teoria do "justo preço", prescrevia a fórmula para estabelecer o preço das mercadorias. Procurou restringir também as guerras, ordenando a "trégua de Deus" e a "paz de Deus". Assim a influência da Igreja estava presente em todas as manifestações da vida.

Mesmo o Estado não tinha uma existência independente da Igreja e de sua missão. Não havia separação entre a Igreja e o Estado, pois este era uma instituição considerada necessária para ajudar a Igreja a realizar seus propósitos. Esperava-se que reis  e príncipes moldassem sua política em harmonia com os ensinamentos da Igreja. Na época romana, a religião havia sido subordinada ao Estado e ao interesse dos cidadãos, mas, durante a Idade Média, era a Igreja que prescrevia os deveres do Estado. Na medida em que o Império Romano declinou, o Estado perdeu gradualmente a posição dominante que tivera na época clássica, e sua posição foi reduzida a uma agência eclesiástica. Além de resolver suas próprias questões, esperava-se que o Estado ajudasse a Igreja a conduzir os homens para a felicidade eterna. Os deveres de um rei, além de cuidar dos deveres do Estado, incluíam poder usar a força para que fossem obedecidas as ordens da Igreja e realizar as punições que a Igreja determinava.

(Robert Ergang, Emergence of the National State, New York, 1971.)  apostilas ETAPA.

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O Estabelecimento da Inquisição

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Apesar de sufocadas pela violência, as heresias continuavam a existir de maneira secreta. Por essa razão, durante o pontificado do papa Gregório IX (1227-1241), o Concílio de Toulouse (1229) criou os "inquisidores da fé".

Os inquisidores estavam encarregados de averiguar as crenças das pessoas. Podiam encarcerar os suspeitos. Esses atos eram cometidos secretamente, seja por meras suspeitas, seja por simples denúncias que eram provocadas pelos mesmo inquisidores e cujos autores permaneciam ocultos.

 o tormento pelas águas

O acusado não era acareado com seus acusadores. Para obriga-lo a confessar, os inquisidores podiam submeter a vítima à tortura. Às vezes o deixavam vários dias sem comer ou beber, ou lhe esmagavam os dedos num torno, ou o faziam beber à força enormes quantidades de água. Depois de ter sido obrigado a confessar, o tribunal pronunciava solenemente a sentença.

 A punição final era a morte na fogueira

O herege que se arrependia era condenado ao "emparedamento", isto é, à prisão. Se continuasse com suas práticas hereges tornava-se "relapso" e, então era queimado vivo. O suplício era executado pelo "braço secular" entregue às autoridades civis, que executavam a sentença da Igreja,

fonte: apostilas ETAPA

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Leia Também:  A Inquisição

A Igreja católica nos séculos XIII e XIV (parte II)

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Os Valdensens

Eram aqueles que aderiram a uma seita cristã que apareceu no final do século XII e que existe até hoje. Essa seita se inscrevia no movimento que dava importância ao Evangelho e era contra os padres. Possuía também tendências maniqueístas (confronto entre o bem e o mal).

O fundador do movimento foi um homem muito rico de Lyon, chamado Pedro Valdo ( daí o nome da seita), que nasceu no final do século XII e morreu em 1217. A partir de suas interpretações da Bíblia, distribuiu todos os seus bens aos pobres e fez renascer a vida apostólica, fundada sobre a pobreza absoluta e a pregação errante.

Juntou em torno de si alguns seguidores, chamados "homens pobres de Lyon", que enviava em missão, dois a dois, com o Novo Testamento, que fizera traduzir do latim para o provençal, idioma bastante utilizado no sul da França. O papa da época, Alexandre III (1159-1181), inicialmente aprovou esta iniciativa de leigos piedosos. Entretanto, inquietou-se quando viu os valdenses negarem-se a se submeter a qualquer controle por parte dos padres da Igreja. Proibiu-os então de pregar sem a autorização dos bispos (1179). Como Pedro Valdo recusou-se a obedecer ao Papa, o movimento foi condenado no Concílio de Verona (1184).

Os valdenses, como represália, passaram a atacar as instituições estabelecidas. Proclamavam que os juramentos eram proibidos pelo Evangelho, que as autoridades civis não tinham o direito de aplicar a pena de morte, que o único mérito era guiar as almas  e dar sacramentos e que, portanto, os padres, os bispos e o papa eram usurpadores.

Essa heresia se estendeu rapidamente pelo sul da França, passou para o Norte da Itália, atingiu a Espanha e a Alemanha. Seu centro era Piemonte, no norte da Itália.

Desde 1209, o papa Inocêncio III lançou uma Cruzada contra os valdenses, e oitenta deles foram queimados em praça pública na cidade de Estrasburgo (1211). Entretanto, tais mortes só fizeram ampliar e consolidar o movimento. No século XV foi feita outra Cruzada contra eles por iniciativa do papa Inocêncio VII (1487), sem que extinguisse a heresia.

Desde 1530, os valdenses entraram em contato com os protestantes suíços e alemães e, em 1531, numa reunião, romperam definitivamente com a Igreja Católica e alinharam-se a estes, fundando a Igreja Evangélica Valdense, que existe até hoje.

fonte: apostilas ETAPA

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Leia também: A Igreja católica nos séculos XIII e XIV (parte I)

A Igreja Católica nos séculos XIII e XIV (parte I)

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O Papa Inocêncio (1198-1216)

No início do século XIII, a Igreja Católica Apostólica Romana era governada pelo papa Inocêncio III. Foi um dos papas mais ativos; colocou o prestígio da Igreja no auge durante a Idade Média. Considerava-se como o juiz dos homens e, sobretudo, dos monarcas, que a ele deviam submeter-se. Uma correspondência de mais de quatro mil cartas durante seu pontificado revela a enorme gama de problemas de que tratou diretamente desde intrincadas questões da política européia de então, até pequenas questões relativas ao dia-a-dia da Igreja. Criou verdadeiramente uma monarquia pontificial.

A Persistência das Heresias

As heresias, que tinham dado muito trabalho à Igreja nos primeiros séculos de sua história, voltaram a ter uma força redobrada no século XIII e, nessa época, mais uma vez foram duramente combatidas pelas autoridades eclesiásticas. Merecem destaque a heresia dos albigenses, que se estendeu, no início do século XIII, por todo o sul da França, e a dos Valdenses, nascida no final do século XII e que de heresia transformou-se em uma igreja estabelecida que existe até os dias atuais.

Os albigenses ou "Cátaros"

Os albigenses recebiam este nome porque a cidade de Albi, no sul da França, foi o principal foco dessa heresia, que se estendeu também por outras regiões. Provavelmente foi oriunda do Oriente, com o qual os franceses do sul mantinham relações comerciais.

Os albigenses acreditavam, como os persas, que havia no universo dois deuses, um do bem e outro do mal (maniqueísmo), que haviam prendido as almas nos corpos. Cristo era um anjo do deus do bem, encarregado de libertar as almas prisioneiras. Admitiam a metempsicose, ou seja, que a alma de um homem pode passar ao corpo de um animal. Por isso não se deve matar um animal nem comer sua carne.

Tinham sacerdotes chamados "perfeitos", que deviam abster-se de carne e levar uma vida pura. Puro, em grego, diz-se Katharo, por isto também eram chamados de cátaros. Deviam viver no celibato e na pobreza.

Quanto aos fiéis, chamados de "crentes", podiam viver segundo seus desejos e instintos, pois a remissão de todos os pecados lhes estava assegurada devido à intervenção dos "perfeitos". Bastava que um "perfeito" pusesse a mão sobre a cabeça do "crente" para apagar todos os pecados que este pudesse ter cometido. Isso chamava-se "consolo", que, porém, podia ser dado somente uma vez. Quem pecasse depois de um "consolo" estaria irremediavelmente perdido. Por essa razão, o "crente" pedia "consolo" apenas na hora de sua morte.

A cruzada contra os Albigenses

A igreja combateu os albigenses com tanto empenho quanto combateu os turcos na Palestina. Em 1208, o papa Inocêncio III pregou uma Cruzada contra os albigenses e excomungou o conde de Toulouse, acusado de fazer parte da seita, e declarou que "todos os católicos tinham permissão de ocupar e guardar para si seus domínios. O chamamento do papa foi ouvido e, do norte da França e da Alemanha, acudiram inúmeros cavaleiros. Essa guerra durou dezessete anos (1209-1226) e é conhecida como "Cruzada dos Albigenses", tendo sido extremamente violenta, envolvendo o extermínio físico de populações inteiras, independentemente de sexo ou idade. O comando dessa expedição coube a Simão Montfort cavaleiro hábil e fanático. Ao final desse conflito, o sul da França era formalmente anexado aos domínios reais.

Intrincado: Enredado, emaranhado, confuso, complicado.

Oriundo: Originário, proveniente, descendente, natural.

Maniqueísmo: Doutrina de Mani (215-276 d. C.) segundo a qual o universo foi criado e é regido por dois princípios que se combatem: o bem, ou Deus, e o mal, ou o Diabo.

Abster: Privar, deixar de intervir, refrear-se, conter-se, privar-se de.

Celibato: Estado daquele que se mantém solteiro.

continua no próximo post...

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Leia também O Cisma do Ocidente

O Cisma do Ocidente

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Apesar  de seu caráter universal e de estar acima dos reis e do imperador, a Igreja católica não era imune a crises. Pelo contrário. Durante a Idade Média, sua autoridade temporal foi contestada e mesmo negada diversas vezes, como na disputa entre o imperador Henrique IV e o papa Gregório VII. Essa disputa, conhecida como Querela das Investiduras, começou porque o papa decidiu extinguir o direito que tinha o imperador de dar  posso (investir) aos bispos do Sacro Império romano-germânico. Iniciada em 1076, a Querela das Investiduras só terminou em 1122, com a Concordata de Worms.

Outra séria crise teve início em 1308, quando o rei da França, Filipe IV, o Belo, quis obrigar o clero francês a pagar impostos. A resposta do papa Bonifácio VIII foi ameaça-lo de excomunhão. Filipe enviou então alguns emissários a Roma para obrigar o papa a ceder. Em meio à crise, Bonifácio VIII faleceu e Filipe, o Belo, aproveitou o momento para transferir a sede do papado para a cidade de Avignon, na França; Essa situação perdurou até 1378, quando o papa Gregório IX, que estava em Roma naquele ano, faleceu.

Com a morte de Gregório IX, a população de Roma reivindicou a escolha de um papa local e o retorno do papado à cidade. Os cardeais cederam às pressões e elegeram Bartolomeo Prigano, arcebispo de Bari, que assumiu a chefia da Igreja com o título de Urbano VI. Descontentes com o resultado, alguns cardeais retiraram-se para Nápoles, onde em setembro do mesmo ano escolheram Roberto de Geneva para substituir Urbano VI. Roberto adotou o nome de Clemente VII e estabeleceu a sede do papado novamente em Avignon.

Esse interrompimento no interior da Igreja ficou conhecido como  Cisma do Ocidente. Clemente VII recebeu o apoio do duque de Borgonha e dos reis Aragão, França, Nápoles e da Escócia. Urbano VI foi apoiado pelo rei da Inglaterra e pelo imperador do Sacro Império romano-germânico.

A divisão permaneceu até o começo do século XV. Em 1414, teve início o Concílio de Constança, destinado a reunificar a Igreja católica. Em 1417, Martinho V foi escolhido como único papa, pondo fim à divisão.

Sacro Império romano-germânico: Conhecido em latim como Sacrum Romanorum Imperium Nationis Germanicae, surgiu em fevereiro de 962, com a coroação do Imperador Oto I. Correspondia ao território das atuais Alemanha, Bélgica, Holanda e Áustria. Em 982, Oto II, filho de Oto I, tomou o título de Imperator Romanorum (Imperador dos Romanos). A expressão Sacro Império, surgiu só no século XII; o termo Sacro Império romano apenas no século XIII.
O Sacro Império romano-germânico deixou de existir em 1806, após a expansão militar da Revolução Francesa (1789). 

Os integrantes da Igreja católica, estavam submetidos a uma rígida hierarquia, na qual os postos mais altos eram ocupados pelo, papa e pelos cardeais, seguidos pelos bispos. Abaixo deles se espalhava uma vasta rede de padres, abades, freiras, monges, vigários e pessoas que exerciam diversas funções.

Atualmente, a Igreja católica reúne cerca de 1 bilhão de fiéis em todo o mundo. É a segunda religião em número de adeptos, superada apenas pelo islamismo. Entretanto, se considerarmos globalmente a fé cristã como uma única religião, acrescentando aos católicos os cristãos ortodoxos e os protestantes, ela seria a primeira religião em número de seguidores, com aproximadamente 2 bilhões de fiéis.

A Inquisição

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No fim do século XI, surgiu no território do Sacro Império romano-germânico uma seita cristã cujos seguidores eram chamados de cátaros (palavra de origem grega, que significa ‘puros’) ou de “pobres de Cristo”. Sua doutrina se baseava na existência de dois princípios universais, o Bem e o Mal. Os cátaros criticavam os dirigentes da Igreja e propunham que os cristãos levassem uma vida simples, afastada da riqueza e do luxo em que viviam o papa e outros membros da hierarquia católica – doutrina conhecida como ascetismo.

Em pouco tempo, os cátaros conquistaram seguidores entre as populações pobres de diversas regiões, entre as quais Albi, na França, onde o movimento ganhou impulso. Por isso, os adeptos da seita passaram a ser chamados também de albigenses.

A resposta da alta hierarquia da Igreja à expansão do movimento albigense não foi o diálogo, foi a repressão. Para combate-lo, o papa ordenou a criação de uma instituição especial: o Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição, responsável por interrogar, prender, torturar e matar as pessoas acusadas de heresia.

Apenas uma denúncia já era suficiente para que uma pessoa fosse presa a mando desse tribunal.

A tortura era utilizada para levar a pessoa a confessar seu suposto crime religioso. Caso fossem condenadas, as pessoas julgadas pela inquisição eram geralmente queimadas vivas em público, numa cerimônia chamada de auto-de-fé. Extinto a partir do século XVIII, o Tribunal do Santo Ofício foi substituído por outra instituição chamada Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.                   

O atual papa Bento XVI, cujo nome é Joseph Ratzinger, já presidiu a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé quando era cardeal. Nessa época, ele interrogou o teólogo brasileiro Leonardo Boff, ligado a uma doutrina conhecida como Teologia da Libertação. Isso aconteceu em 1984. Ratzinger conduziu o interrogatório que culminou com a condenação de Boff a um ano de “silêncio obsequioso”, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder".
Na época, Boff foi obrigado a sentar-se na mesma cadeira que Galileu Galilei sentou 400 anos antes. E escutou de Ratzinger as seguintes palavras: “Eu conheço o Brasil, aquilo que vocês fazem nas Comunidades Eclesiais de Base não é verdade, o Brasil não tem a pobreza que vocês imaginam, isso é a construção da leitura sociológica, ideológica, que a vertente marxista faz. Vocês estão transformando as Comunidades Eclesiais de Base em células marxistas”
Veja entrevista de Boff. Clique aqui

O Grande Cisma

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Entre os séculos I e XI, todos os cristãos estavam reunidos em uma mesma Igreja, chamada de católica. Durante essa época, as principais autoridades da Igreja eram os bispos de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma. Esses bispos eram chamados de patriarcas.

Até o século IV, enquanto Roma ainda era a capital do Império, seu bispo exercia maior influência sobre as decisões da Igreja. Ele acreditava que sua autoridade vinha de São Pedro, que teria vivido em Roma e é considerado o primeiro papa. Com o tempo, os bispos do Império Bizantino começaram a contestar a supremacia do bispo de Roma.

Por causa desse conflito, o patriarca de Constantinopla acabou rompendo com o papa. Essa divisão, conhecida como Grande Cisma ou Cisma do Oriente, ocorreu em 1054. Com ela, surgiram duas instituições religiosas totalmente independentes uma da outra: A Igreja Cristã Ortodoxa, com sede em Constantinopla (atual Istambul), e a Igreja Católica Apostólica Romana, com sede em Roma.

 

A Hierarquia Católica

Desde o século XI, o catolicismo romano é uma das religiões mais hierarquizadas do mundo. Com exceção dos diáconos, os cargos mais altos da Igreja Católica só podem ser ocupados por homens solteiros.

O papa, considerado infalível, comanda todo o restante do clero. Durante a Idade Média, sua autoridade secular tinha por base os  Estados Pontifícios, que formavam o Patrimônio de São Pedro. Em 1922, foi criado o Estado do Vaticano, um Estado independente separado de Roma e da Itália, onde o papa vive até hoje.

No Vaticano também vive um grande número de cardeais. Eles ocupam o segundo lugar na hierarquia católica. Os cardeais são nomeados pelo papa e são eles que escolhem um novo papa depois da morte de seu antecessor.

Abaixo dos cardeais vem os arcebispos, que comandam regiões chamadas dioceses, estabelecidas em grandes cidades e compostos de muitos cristãos. Aqueles que comandam as dioceses menores são chamados de bispos, considerados os sucessores diretos dos doze apóstolos de Jesus. Arcebispos e Bispos só podem ser nomeados pelo papa.

A principal igreja de uma diocese é chamada de catedral por causa da cátedra, cadeira reservada ao bispo. Na administração das catedrais, os bispos são auxiliados pelos cônegos.

Abaixo dos cônegos estão os padres, que são nomeados pelos bispos. Os padres são responsáveis por uma divisão da diocese chamada paróquia. Ao longo da história da Igreja, os padres também foram chamados de párocos, presbíteros e curas. Seus substitutos provisórios são os vigários e seus auxiliares são chamados de leitores, acólitos e diáconos.

Os Mosteiros

Além desses cargos, existem no interior da Igreja católica religiosos que optam por se afastar do restante da sociedade. Os homens que adotam essa vida são chamados de monge, freire ou frei; as mulheres de monja, freira ou sóror.

Na Idade Média, os monges e freiras viviam em locais chamados mosteiros ou abadias, chefiados por um abade, onde rezavam e estudavam. Eles também faziam cópias dos textos que pertenciam à biblioteca dos mosteiros. Eram os monges copistas. Seu trabalho era bastante importante numa época em que não existia o sistema de impressão de livros em gráficas. Quase sempre, ao lado do mosteiro havia uma escola, na qual os monges ensinavam religião as crianças.

Durante quase toda a Idade Média, a educação esteve sob o controle da Igreja. Ler e escrever era um privilégio de uma minoria da nobreza. A grande maioria da população era analfabeta. Padres e monges cuidavam da alfabetização dos jovens da nobreza, ensinando a eles as primeiras letras juntamente com noções da religião cristã. O ensino superior também estava a cargo da Igreja. Um dos pensadores de maior destaque dessa época foi Santo Agostinho. Só em 1088 foi fundada em Bolonha a primeira escola laica (não-religiosa) de Direito.  No período final da Idade Média, o pensamento filosófico foi dominado por Santo Tomás de Aquino.     

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A Igreja católica - Cronologia

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(Séculos IV-XI)

Janeiro de 1077. É inverno na Europa. Penosamente, os cavalos do imperador Henrique IV e de sua comitiva avançam sobre o campo nevado e se aproximam do castelo de Canossa, na península Itálica, onde se encontra o papa Gregório VII. Henrique desmonta, bate à porta do castelo. Do lado de dentro, alguém pergunta:
__ Quem ousa  perturbar o repouso de Sua Santidade, o papa?

Henrique se identifica. O papa manda-o esperar. Durante três dias e três noites, sob a neve e o rigor do inverno europeu, o imperador do Sacro Império romano-germânico aguarda do lado de fora a resposta do papa. Por fim, Gregório o recebe. Henrique ajoelha-se e pede perdão. Num gesto de ostensiva generosidade, o papa lhe perdoa e suspende o decreto de excomunhão que pesava sobre o imperador.

Esse episódio nos mostra o poder da Igreja católica dessa época.

 

  •   962  É criado o Sacro Império romano-germânico com base no território da antiga França Oriental.
  •  1054 As Igrejas cristãs latina (Roma) e grega (Constantinopla) se separam no episódio conhecido como Grande Cisma do Oriente.
  •  1076 Tem início a Querela das investiduras.
  • 1077 O papa Gregório VII excomunga o imperador Henrique IV.
  •  1231 É criado o Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição.
  •  1252 A Inquisição institui a prática de tortura como forma de arrancar confissões dos suspeitos de heresia.
  •  1308 O rei francês Filipe IV, o Belo, entra em choque com o papa Bonifácio VIII e transfere a sede do papado para Avignon, na França.
  •  1378 Tem início o Grande Cisma do Ocidente.
  •  1417 Com a eleição de Martinho V como único papa, a Igreja católica é reunificada.

Poder Universal

O episódio envolvendo o imperador Henrique IV e o papa Gregório VII ficou conhecido como a “peregrinação de Canossa” ou “a humilhação de Canossa”. Ele revela a enorme força da Igreja católica durante a Idade Média.

O papa e os reis

De fato, a Igreja Medieval era uma organização que estava acima de todas as outras. Era ela que legitimava o poder dos reis. Era por intermédio do papa que o imperador do Sacro Império romano-germânico recebia a “graça de Deus”. O poder da Igreja era tão universal, isto é, abrangia tantos reinos e grupos sociais que ela poderia até mesmo excomungar governantes, como aconteceu com o imperador Henrique IV.

Segundo a crença da época, os membros da Igreja, que formavam o clero católico, eram os únicos intermediários autorizados entre Deus e as pessoas, pois somente eles eram capazes de compreender as mensagens de Deus e de transmiti-las a seus fiéis.

Depois da morte de Carlos Magno os reis perderam cada vez mais seu poder para os senhores feudais. Não só na França, mas em outros reinos também. Na verdade, o Sacro Império romano-germânico era apenas uma caricatura do antigo Império romano. Não contava com um poder fortemente centralizado como este e seu território era formado por diversos feudos e reinos independentes. Isso fazia com que o poder do imperador fosse bem mais limitado do que o dos imperadores romanos.

Apesar de suas divisões, os reinos da Europa estavam unidos em torno da idéia de que faziam parte da Cristandade, isto é, de um conjunto de povos que seguiam a fé cristã a acatavam o poder espiritual da Igreja. Por isso, dizia-se que a Igreja tinha um poder universal. A idéia de Cristandade constituía uma forma de afirmar a identidade religiosa dos cristãos principalmente diante dos seguidores do islamismo, que ocupavam a península Ibérica, o norte da África e boa parte do Oriente.

 

 

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