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A Revolta dos Malês

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Dentre as diversas rebeliões lideradas por africanos, destaca-se a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, Bahia, em 1835. O termo malês era usado para designar escravos e forros muçulmanos, isto é,  seguidores do islamismo. Muitos desses rebeldes eram negros de ganho, com maior liberdade de circular pela cidade .

Por serem em número reduzido, os malês se uniram principalmente  a escravos e forros que não eram muçulmanos, principalmente das etnias Ioruba, Hauçá, Jeje e Tapa. A revolta começou no dia 24 de janeiro de 1835, data do encerramento do ramadã, o mês de jejum dos muçulmanos. Os malês acreditavam que naquele dia Alá estaria controlando os espíritos do mal e reorganizando o mundo – momento  ideal para a rebelião.

De acordo com o plano, os revoltosos sairiam da Vitória (atual bairro da Barra, em Salvador) e tomariam de surpresa a cadeia pública, o palácio do governo e alguns quartéis.

Por mais de três horas, cerca de seiscentos negros lutaram contra as forças policiais, mas foram vencidos. Centenas de rebeldes morreram nos confrontos ou acabaram presos; pelo menos cinco dos principais líderes foram condenados à morte.

De acordo com o historiador João José Reis, boatos de revoltas inspiradas no exemplo baiano fizeram o governo brasileiro tomar medidas firmes visando controlar a população escrava.

Uma dessas medidas foi a pena de morte para crimes cometidos por escravos contra senhores e feitores. Outras regiões do Brasil, temendo revoltas semelhantes, proibiram a importação de escravos vindos da Bahia. Em Boston, nos Estados Unidos, o jornal The Liberator notificou o levante como parte de uma campanha abolicionista. No entanto, a abolição dos escravos só se concretiza em 1888.

Mulheres Negras

Uma mulher teve papel importante na Revolta dos Malês. Sua casa tornou-se quartel-general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX. Segundo alguns autores, Luiza Mahin veio para o Brasil como escrava; segundo outros era natural da Bahia, tendo nascido livre por volta de 1812.

Em 1830 deu à luz à um filho, Luiz Gama, que mais tarde se tonaria poeta e abolicionista e escreveria as seguintes palavras sobre sua mãe: “Sou filho natural de uma negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã”.

adaptado de CARNEIRO, Sueli. Mulheres negras: lembrando nossas pioneiras. Articulação de mulheres negras brasileiras. www.mulheresnegras.org.br.htm> acesso.20/2/2006.

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O quilombo dos Palmares

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Contra a escravidão e os maus-tratos, os negros rebelavam-se e fugiam das senzalas, tentando organizar-se para sobreviver nas matas e formando aglomerados, conhecidos como quilombos. O mais famoso foi o quilombo dos Palmares, por ter sido o mais populoso e duradouro.

Palmares era uma uma confederação de pequenas comunidades de quilombolas (habitantes dos quilombos), conhecidas como mocambos. O local era protegido por um sistema de fortificação. O mocambo do Macaco era a fortificação mais importante, podendo ser considerada a capital do quilombo dos Palmares. Esse foi o maior  Estado negro da América, onde dezenas de milhares de negros viveram e resistiram as assédio dos brancos por cerca de 65 anos.

A vida em Palmares

Tudo indica que desde o princípio do século XVII já havia na região um aglomerados de negros fugidos das senzalas. Mas o crescimento dos quilombos deu-se com a invasão holandesa, pois os engenhos foram em parte destruídos pela guerra e os negros aproveitaram a confusão para fugir.

Os negros iam chegando e se organizando em mocambos. Caçavam, pescavam e plantavam tudo de necessitavam: milho, mandioca, batata-doce. Essa abundância alimentar das comunidades negras contrastava com miséria da população do litoral.

Os mocambos eram circundados por uma paliçada como proteção a um eventual ataque. O número de habitantes do quilombo dos Palmares no seu auge foi calculado entre 20 e 30 mil negros de várias origens. Além dos negros, o quilombo abrigava também índios fugidos da escravidão e homens livres brancos e pobres.

Politicamente, os quilombolas organizavam-se num tipo de “Estado” baseado na comunidade tribal. Elegiam um “rei”, cujo requisito era coragem e a capacidade de liderança. O primeiro “rei” foi o famoso Ganga-Zumba, que, ao morrer, foi substituído por outro, não menos famoso: Zumbi.

Zumbi dos Palmares

A existência desse “Estado” negro formado ´por escravos fugidos era uma ameaça para a estrutura da ordem colonial e escravocrata. Por essa razão, os brancos, senhores de engenho e as autoridades da metrópole empenharam-se na sua destruição.

Guerra ao quilombo dos Palmares

Os primeiros ataques ao quilombo foram feitos pelos próprios holandeses, que pretendiam recuperar a força de trabalho para pôr em funcionamento os engenhos. Depois do fim do domínio holandês, os colonos luso-brasileiros organizaram em 1667, uma grande operação, comandada por Zenóbio Accioly Vasconcelos, mas que não obteve sucesso.

Alguns centros açucareiros começaram a empregar forças mercenárias para atacar Palmares. Foi nessa época que bandeirantes paulistas foram chamados para participar de incursões contra o quilombo. Os negros, para se defender, usavam a tática de guerrilha, mudando constantemente os mocambos de lugar, o que dificultava muito os ataques  dos brancos. Como as operações militares contra o quilombo não davam resultados, o governador de Pernambuco estabeleceu, em 1678, um acordo de trégua com Ganga-Zumba. Pela primeira vez os brancos foram obrigados a negociar com os negros.

Mas a trégua foi logo rompida e os combates recomeçaram. Os negros quilombolas, agora liderados por Zumbi dos Palmares, enfrentaram uma guerra total.

O governador de Pernambuco contratou o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho para destruir Palmares. Famoso e experiente na luta contra os índios resistentes à escravidão, ele chegou a Palmares por volta de 1692 com quase mil homens, entre brancos e índios.

Iniciados os combates, os paulistas encontraram tenaz resistência por parte dos negros, comandados  por Zumbi, e foram obrigados a uma retirada forçada.

Em fins de 1694, com quase 3 mil homens e artilharia pesada, Domingos Jorge Velho iniciou outro poderoso ataque a Palmares. A cerca defensiva, de mais de cinco quilômetros de extensão, impedia o avanço dos homens do bandeirante paulista. Mas a munição dos quilombolas esgotou-se e a resistência não durou muito. Mesmo assim, pequenos grupos sobreviveram no mato por mais algum tempo.

Após a morte de Zumbi, é possível que parte do quilombo dos Palmares tenha sido reconstruída, existindo até 1740. Séculos depois, em 1978, o Movimento Negro Unificado transformou a data oficial da morte de Zumbi, 20 de novembro, em Dia Nacional da Consciência Negra.

Atualmente, cerca de 2 milhões de afro-descendentes vivem em áreas remanescentes de quilombos. Eles lutam para que o Estado lhes reconheça o direito sobre as terras ocupadas por seus familiares há várias gerações.

PEDRO, Antônio. História da civilização ocidental: ensino médio:volume único.

A sociedade colonial

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A sociedade colonial brasileira sofreu poucas modificações estruturais ao longo dos seus trezentos anos.

Nesse largo período a forma de produção da riqueza da sociedade como um todo manteve-se baseada no trabalho escravo. Em outras palavras, as condições sociais foram determinadas pela forma de trabalho, que praticamente não se modificou até a segunda metade do século XIX.

A vida no engenho

O engenho estava localizado na zona litorânea. Era ali  que se passava toda a vida da colônia. O proprietário, senhor de engenho, era a autoridade máxima, pois detinha poder praticamente absoluto sobre todos os moradores da sua propriedade. Todos se submetiam à autoridade, inclusive os poucos homens livres, como os mascates (vendedor ambulantes), pois o engenho era o seu grande comprador.

   Senhor de Engenho

Outros homens livres que também integravam a sociedade colonial eram lavradores que produziam cana-de-açúcar em terras arrendadas pelos senhores. Esses lavradores, apesar de dependentes dos senhores, chegavam também a possuir escravos.

A camada dominante da sociedade colonial repudiava o trabalho manual, atividade quase exclusiva de escravos. O cronista Luís Vilhena comenta essa atitude num texto do começo do século XIX;

Porque não há de cavar no Brasil aquele que em Portugal só vivia de sua enxada? (…) Porque há de querer mandar quem nada mais soube que obedecer? Porque há de ostentar de nobre quem sempre foi plebeu?

A casa-grande

Nas terras do engenho, o senhor mandava erguer um solar para sua moradia. Era a chamada casa-grande. Na casa-grande o senhor estabelecia com os outros membros da família e demais moradores ligados ao engenho uma relação patriarcal. O pátrio poder, isto é, o poder dos senhores patriarcais, era ilimitado, caracterizando uma verdadeira tirania. Tudo era decidido por ele, o senhor de engenho, que tinha no seu primogênito o único herdeiro desse poder.

Os homens livres que viviam nas dependências e imediações da casa-grande eram os agregados. Sem papel muito definido na sociedade colonial, sua relação de subordinação ao senhor era uma garantia de sobrevivência.

Por não ter nenhuma herança de sangue, que caracterizava a nobreza européia, os senhores e suas famílias ostentavam um luxo que muitas vezes não condizia com suas condições econômicas. Era uma forma de manter uma posição de destaque nessa sociedade.

Os escravos domésticos que viviam em dependências secundárias da casa-grande, eram as mucamas (jovens escravas), criados, moleques de recado etc. As mulheres dos senhores de engenho, quando saíam, faziam-se acompanhar de um pequeno séquito de escravos e costumavam portar jóias para ostentar riqueza.

A Senzala

Num barracão próximo à casa-grande, localizava-se a moradia dos negros escravizados, a senzala. Na senzala os negros dormiam amontoados e sofriam os mais variados maus-tratos. A humilhação e o castigo corporal tinham por objetivo destruir a identidade e a personalidade dos negros, facilitando assim a sua submissão e o aproveitamento máximo da sua força de trabalho.

O açoite pretendia fazer com que o negro se auto-representasse como vadio, traiçoeiro, maldoso e que pelas diferenças raciais, em que a cor da pele estabelecia uma rígida hierarquia na sociedade: o branco era o superior; logo abaixo vinha o moreno, que era melhor que o mulato; em último estava o negro, que era inferior a todos.

Essa situação de inferioridade a que os brancos relegavam os negros era reforçada pela idéia negativa que se tinha das atividades manuais. De modo geral, quem sofria mais com esse tipo de discriminação eram os escravos do eito, isto é, os que trabalhavam direto na lavoura.

A capela e a vila

Também a vida religiosa no Brasil colônia se desenvolvia principalmente no interior dos engenhos, em capelas e pequenas igrejas de fé católica. Essas construções tinham uma função social, pois era nas ocasiões de festas religiosas que os membros da sociedade tinham a oportunidade de se encontrar. De modo geral, o clero colonial era subordinado aos interesses dos senhores de engenho.

Com exceção de alguns centros, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro, praticamente não havia vida urbana na colônia. As vilas eram centros de administração portuguesa e colonial.

 

Mitos sobre a escravidão no Brasil

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Durante o século XIX, muitos viajantes europeus escreveram relatos sobre a vida cotidiana nas cidades brasileiras, marcadas pela presença maciça de negros escravizados e forros (libertos da escravidão). A visão desses autores contribui para difundir diversos mitos sobre a escravidão.

Um deles foi a idéia de que os senhores compravam escravos de diferentes etnias para evitar que se comunicassem e organizassem rebeliões, como escreveu o pastor Robert Walsh, que visitou a cidade de São João del Rey em 1828.

De acordo com o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esse mito surgiu porque os europeus imaginavam que a estratégia do senhor de escravos seria a mesma dos senhores da Antiguidade romana, que misturavam escravos de línguas diferentes para melhor controla-los.

Segundo Florentino, os senhores do século XVI não podiam escolher de onde vinham seus escravos que sobreviviam. Quanto maior a distância do local de origem, menor a quantidade de escravos sobreviviam à viagem. Isso explica o grande número da Bantos no Rio de Janeiro e de africanos originários do Sudão e do Golfo da Guiné na Bahia e no norte do Brasil. 

Banto: Indivíduo dos bantos, um dos povos que falam qualquer das centenas de línguas bantas, grande conjunto de línguas do grupo nigero-congolês oriental faladas na África.

Famílias na Senzala

Outro mito bastante divulgado é a crença de que raramente os africanos escravizados tinham família e, quando tinham, isso era estratégia do senhor para reduzir as rebeliões. A família serviria para garantir a paz entre escravos e senhores, ajudando a enraizar os escravos no local que habitavam.

Muitos escravos viviam em senzalas coletivas ou na casa dos senhores, mas era comum que escravos casados tivessem moradia separada. Alguns tinham acesso a um pedaço de terra e plantavam alimentos para o consumo da família. Viviam em pequenas casas baixas e sem janelas, em cujo interior havia um fogo sempre aceso.

De acordo com o historiador Robert Slenes, da Unicamp, Sâo Paulo, esse mesmo padrão de moradia podia ser encontrado na África central, de onde veio o maior número de escravos para o Brasil. O fogo sempre aceso representava a ligação com os lares dos antepassados, indicando que mesmo vivendo no Brasil a família cultuava sua origem africana. Para Slenes, isso demonstra que a família foi um dos elementos que contribuíram para a formação de um comunidade de escravos em oposição aos senhores. Assim, a família não seria responsável pela manutenção do escravismo, mas sim uma ameaça a ele.

Do escambo à escravidão

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A primeira forma de trabalho estabelecida pelos portugueses e franceses na América foi o escambo, que significa ‘troca’ ou ‘permuta’.  Nesse caso, escambo consistia em trocar o trabalho dos indígenas por mercadorias de pouco valor para os europeus, como miçangas, espelhos e machados.

Na cultura dos indígenas não havia interesse em acumular mercadoria nem riquezas. Para os indígenas não fazia sentido trabalhar para acumular vários machados ou espelhos. Cada indivíduo trabalhava até conseguir o que desejava e então se recusava a continuar trabalhando.

A maioria dos europeus do século XVI era incapaz de entender essa atitude. Como o sistema de escambo não funcionou de acordo com os interesses dos europeus, eles passaram a escravizar os indígenas.

O mito da Indolência (preguiça) indígena

Desde o início da colonização, existe na América uma visão preconceituosa que caracteriza os indígenas como preguiçosos ou incapazes para o trabalho. Mas é uma atitude duplamente preconceituosa atribuir o estabelecimento da escravidão africana ao fato de o indígena “não ser bastante eficiente na dura faina” (trabalho), como escreveu Joaquim Silva em um livro didático de 1959.

Significa dizer, numa única frase, que os indígenas são preguiçosos e que africanos se destinam ao trabalho pesado. É óbvio que os indígenas não gostavam de trabalhar como escravos. Nem eles, nem os africanos, nem ninguém.

Há melhores explicações para a implantação da escravidão africana na América portuguesa. Uma delas é a influência dos missionários católicos, que tinham interesse em utilizar o trabalho indígena nas missões jesuíticas e acreditavam que os africanos estavam destinados à escravidão. Por isso, a escravidão indígena acabou proibida pelo Estado português.

Outra explicação é o interesse dos traficantes de escravos africanos: com a proibição de escravizar indígenas, os colonos portugueses se tornaram importantes clientes dos traficantes, proporcionando a eles grandes lucros. 

O Tráfico Negreiro

O comércio de escravos africanos era controlado principalmente por mercadores portugueses, ingleses e holandeses. A aquisição de escravos na África ocorria de várias maneiras. Inicialmente, os mercadores atacavam aldeias próximas da costa africana. Mais tarde, fizeram alianças com chefes africanos, que capturavam homens, mulheres e crianças no interior do continente em troca de mercadorias como cavalos, tecidos, objetos de cobre, fumo e aguardente.Os africanos escravizados eram embarcados em navios de pequeno porte para a América. Cada embarcação transportava cerca de 400 pessoas, acorrentadas umas às outras para evitar rebeliões.

O tráfico de escravos para a colônia crescia na mesma medida que se expandia a cultura da cana-de-açúcar. O porto de Luanda, em Angola, transformou-se no mais importante ponto de embarque de negros para o Brasil. A importância desse mercado fornecedor de mão-de-obra pode ser avaliada pelo seguinte dado: até 1680 havia passado pelo porto de Luanda mais de um milhão de escravos.

A viagem dos navios negreiros era um verdadeiro inferno para os escravos. Amontoados pelos traficantes nos porões, mal tinham condições de respirar. Quanto maior a quantidade de escravos transportados, maior o lucro, apesar de pouco mais da metade sobreviver à viagem.

Quando chegavam aos principais portos do Brasil, como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, os africanos eram expostos nos mercados à disposição dos senhores que precisavam da “mercadoria”. Veja o que diz um cronista:

Os escravos eram colocados nas ruas diante das portas dos proprietários (…) deitados ou sentados (…) em número que atingia, às vezes duzentos ou trezentos. (…) Seu alimento é carne salgada, farinha de mandioca e às vezes banana-da-terra (…). À noite os escravos são conduzidos a um ou mais armazéns e o condutor fica em pé, contando-os à medida que eles passam. (…) O comprador dá a cada um  dos escravos recém-comprados um grande pano (…) e um chapéu de palha e leva-os o mais depressa possível para a sua fazenda.

KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. São Paulo, Nacional, 1942.

Além da violência física, os africanos sofriam uma profunda agressão à sua cultura. Arrancados de seu meio natural e social, atirados em uma terra de língua, religião e hábitos desconhecidos, os africanos enfrentavam  todas as dificuldades para manter sua identidade cultural. Conservar suas tradições era uma forma de resistir à violência e à dominação dos brancos.

Nas grandes fazendas a maioria dos escravos recebia uma cuia de feijão e uma porção de farinha de mandioca ou de milho. Vez por outra recebia também  toucinho, rapadura e charque (carne seca).

De modo geral, a alimentação dos escravizados era pouca e de má qualidade, o que acarretava sérios problemas de saúde e envelhecimento precoce. Muitos eram descritos como tendo 60 anos de idade, quando na verdade tinham entre 35 e 40 anos.

Os escravizados eram vigiados de perto por feitores, que, quase sempre, os castigavam por qualquer motivo, como por exemplo, fazer uma pequena pausa para descanso ou se distrair no trabalho. Os castigos eram muitos: chicotadas, palmatórias e outros ainda mais cruéis. Os fugitivos, eram marcados com ferro em brasa com a letra F  (fujão).

A violência  contra os escravos

 

 ilustração: BOULOS JUNIOR,Alfredo.História Sociedade & Cidadania. sétima série. p. 61

Vários eram os instrumentos utilizados para castigar os escravos por alguma falta cometida. Entre eles estavam:

A palmatória que provocava inchaço e dores nas mãos; o colar de ferro, ou gargalheira, era colocado em volta do pescoço do escravizado e ligava-se a correntes para prende-lo; a máscara de flandres, feita de zinco ou folha de flandres, permitia ao cativo enxergar e respirar, sem conseguir levar alimento à boca. Segundo a tradição popular, a máscara de flandres foi usada para castigar a escrava Anastácia, cuja beleza e altivez provocavam ciúme e a cólera de sua senhora.

Resistência

Tanto indígenas quanto africanos resistiam à escravidão durante todo o tempo em que ela existiu no Brasil, ou seja, por mais de trezentos anos. Para escapar dela, os indígenas entraram em guerra contra os colonos portugueses. Tanto indígenas como africanos fugiam constantemente do cativeiro. Muitos escravos promoviam rebeliões que, quando vitoriosas, resultavam em fugas em massa.

Os escravos fugidos procuravam se distanciar das regiões colonizadas pelos europeus, estabelecendo sociedades que na América portuguesa ficaram conhecidas como quilombos. Na América espanhola, eram  chamadas de palenques ou cumbes.

Além das fugas e dos quilombos, houve outras formas de resistência, como no caso dos escravos do Engenho Santana, em Ilhéus, Bahia. Por volta de 1789, depois de dois anos vivendo num mocambo (choça), eles propuseram um acordo a seu antigo senhor, exigindo certas condições para  voltar a trabalhar para ele.

Carta dos ex-escravos do Engenho Santana ao seu antigo senhor, c.1789

Meu Senhor, nós  queremos  paz e não queremos guerra; se meu senhor também quiser nossa paz há de ser nessa conformidade, se quiser estar pelo que nós quisermos a saber:

Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e sábado para trabalharmos para nós não tirando um destes dias por causa de dia santo.

Para podermos viver nos há de dar rede, tarrafa e canoas. […]

Faça uma barca grande para quando for para Bahia nós metermos as nossas cargas para não pegarmos frete. […]

Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com nossa aprovação. […]

O canavial de Jabirú o iremos aproveitar por esta vez, e depois há de ficar para pasto porque não podemos andar tirando canas por entre mangues.

Poderemos plantar nosso arroz onde quisermos, e em qualquer brejo sem que para isso peçamos licença, e poderemos cada um tirar jacarandás ou qualquer pau sem darmos parte para isso.

A estar por todos os artigos acima, […] estamos prontos para o servirmos como dantes, porque não queremos seguir os maus costumes dos mais Engenhos.

Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença.

REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.123-4

fonte:BOULOS JUNIOR, Alfredo.coleção: História Sociedade & Cidadania;CARDOSO, Oldimar, coleção: Tudo é História; PEDRO,Antônio. História da civilização ocidental.

Escravidão - Cronologia

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Era um sonho dantesco… o tombadilho/ Que das Luzernas avermelha o brilho/ Em sangue a se banhar/ Tinir de ferros, estalar do açoite/ Legiões de homens desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…”

Esses versos do poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves, falam de uma época em que milhões de seres humanos eram capturados na África e trazidos à América para trabalhar como escravos. O poema expressa a indignação das pessoas que, no século XIX, lutaram contra a escravidão no Brasil.

  • 1597 Data provável da formação do quilombo dos Palmares, em Pernambuco.
  • 1678 Ganga Zumba, rei de Palmares, é assassinado depois de fazer um acordo de paz com o governo da capitania de Pernambuco. Os palmarinos escolhem Zumbi o novo rei de Palmares
  • 1695 Expedição chefiada pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho mata Zumbi.
  • 1740 Data provável da destruição do quilombo dos Palmares.
  • 1835 Revolta dos Males, em Salvador.
  • 1978 Movimento Negro Unificado transforma a data da morte de Zumbi, 20 de novembro, em Dia Nacional da Consciência Negra.

Veja vídeo do poema Com imagens do filme Amistad, realizado por Steven Spielberg. O “Navio Negreiro”, de Castro Alves, do século XIX, na voz de Paulo Autran.

 Antônio de Castro Alves (1847-1871). Poeta baiano, Ainda muito jovem, ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Participou intensamente do movimento  abolicionista, que abalou o Império na segunda metade do século XIX. Foi um dos expoentes do Romantismo no Brasil. Entre seus poemas mais conhecidos estão “Os escravos”, “Vozes d’África” e “Navio Negreiro”. Castro Alves morreu aos 24 anos de idade.

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Os Racionais MC’s escreveram o rap Voz Ativa, século XX e identificam os problemas que os negros brasileiros enfrentam nos dias de hoje.

Voz Ativa

Mais da metade do país é negra e se esquece

Que tem acesso apenas ao resto que ele oferece […]

Modelos brancas no destaque

As negras onde estão?

Desfilam no chão, em segundo plano […]

Brancos em cima, negros em baixo

Ainda é normal, natural

400 anos depois, 1992, tudo igual

Bem- vindos ao Brasil Colonial.

Escolha o seu caminho. Racionais MC’s. Zimbabwe Records, 1992.

CARDOSO, Oldimar. coleção Tudo é História. ensino fundamental

Mesmo depois de tantos anos, os negros do Brasil e do mundo enfrentam muitas dificuldades.

Os direitos e deveres dos povos de todo mundo devem ser preservados, somos todos iguais perante Deus.

Temos o dever de rever nossos conceitos e deixar de ter preconceito.

 

A empresa agrícola colonial portuguesa

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A economia brasileira nascia dependente do exterior. A produção era baseada na monocultura e determinada pelo mercado externo, estando sujeita, portanto às oscilações desse mercado. Essa era a característica das colônias de exploração, em oposição às colônias de povoamento.

Até a primeira metade do século XVI, a burguesia e o governo português obtinham seus lucros do comércio dos produtos do Oriente. Isso significa que os lucros se faziam nos limites da circulação da mercadoria. Não havia  necessidade de intervenção direta na produção, pois as regiões do Oriente ofereciam bens acabados, prontos para a comercialização.

Com a crise do comércio com o Oriente e com a conseqüente decisão de explorar a colônia, Portugal passou a intervir diretamente na produção. Isso significa que era preciso montar uma empresa para produzir uma mercadoria de fácil acesso ao mercado consumidor europeu. Para isso era preciso atrair os colonos, povoar as terras e criar condições mínimas de produção.

Em boa parte da América inglesa, os colonos vinham para instalar pequenas fazendas e trabalhar com suas famílias, tendo como objetivo a sobrevivência e não a produção para mercado externo em larga escala. Já no Brasil instalou-se um tipo de colonização baseado na lavoura de cana-de-açúcar e no trabalho escravo, que oferecia grandes lucros aos colonos que se dispusessem a explorar essa atividade, para a qual o Nordeste do Brasil oferecia condições favoráveis.

O açúcar era um produto muito apreciado e raro na Europa e, além disso, os portugueses já tinham  certa experiência no cultivo da cana nas ilhas atlânticas de sua posse. No entanto, a montagem de tal empresa requeria grande volume de capital e por isso Portugal precisou associar-se aos holandeses, que garantiram a distribuição do produto na Europa e mesmo o financiamento da produção.

A mão-de-obra utilizada foi a escrava perfeitamente adequada à política mercantilista, proporcionando grandes lucros aos traficantes. O trabalho escravo do índio não gerava renda para o setor mercantil. O objetivo essencial da metrópole. Parte da renda dos senhores de engenho era despendida na compra de escravos, indo portanto, engrossar os lucros do setor mercantil português. Não interessava à metrópole a formação de uma classe de pequenos proprietários com produção variada e destinada ao consumo interno, como ocorria nas colônias de povoamento.

 engenho de cana-de-açúcar – Brasil colonial

Para ser rentável, a produção precisava ser  em grande escala. Somente o latifúndio (grande proprietário) e a exploração do trabalho escravo poderiam garantir essa rentabilidade. Latifúndio, monocultura e produção voltada para o mercado externo formavam o trinômio básico do sistema colonial. Adicione-se a essa fórmula o trabalho escravo e teremos o sistema que se convencionou chamar plantation.

Os lucros da empresa açucareira repartidos entre os colonos e os ricos negociantes que aplicavam seus capitais na produção e na comercialização do açúcar. O Estado também participava dessa empresa, apoiando e incentivando os colonos que quisessem vir para o Brasil e dedicar-se à lavoura de cana-de-açúcar. Esses colonos se transformaram na camada social de senhores de terra que, por muitos séculos dominaram o cenário social e político do Brasil.

O engenho de açúcar, incluindo as terras, as instalações, era a unidade básica de produção no Brasil colonial. Praticamente auto-suficiente, o engenho produzia quase tudo o que seus habitantes precisavam. Dos diferentes tipos de engenho que existiram no Brasil colonial, dois se destacavam já desde a segunda metade do século XVI: o engenho real, movido a energia hidráulica, o mais produtivo deles, e o trapiche (armazém junto ao cais onde se depositam as mercadorias), movido a tração animal, de menor produtividade.

O engenho era constituído, pelas terras para plantio da cana, a casa grande para a moradia do senhor e sua família, a senzala que abrigava os escravos, uma capela e a casa do engenho, onde se concentrava a principal  tarefa produtiva de transformação da cana em açúcar. Havia ainda as terras ocupadas pela agricultura de subsistência e pelas pastagens para o gado.

A casa de engenho tinha uma série de equipamentos: uma moenda, grandes fornalhas e tachos, e a casa de purgar, onde o produto era posto para secar para se transformar em açúcar sólido. O produto era depois embalado em caixas de 750 quilos e enviado para Portugal.

Um engenho produzia anualmente entre 3 a 10 mil arrobas (45 e 150 mil quilos).

Além disso criava-se gado, plantava-se arroz, mandioca e algodão somente para consumo interno do engenho, sem afetar a estrutura mercantil da empresa colonial. Somente a aguardente, subproduto da cana-de-açúcar, era utilizada para necessidades comerciais externas. Ela servia como moeda na compra de escravos negros na África.

A empresa açucareira empregou mão-de-obra escrava em massa para garantir a produção exigida pelo mercado europeu. Os índios foram escravizados como uma solução mais imediata desse empreendimento capitalista. No entanto, a burguesia mercantil européia, ansiosa por aumentar seus lucros, compreendeu que o investimento na compra e captura de escravos negros africanos seria altamente compensador.

A compra de escravos nos portos da África, seu transporte para a América e depois sua venda aos colonos fazendeiros significava grandes lucros para os traficantes, não só de Portugal, como de outros países da Europa. A exploração do trabalho escravo dos índios continuou, mas em pequena escala e em regiões da colônia onde a empresa açucareira não se instalou efetivamente. Os índios não foram utilizados como mão-de-obra intensiva porque isso não propiciava lucros para os traficantes portugueses. Essa era a lógica do mercantilismo.

Outro motivo para o emprego da mão-de-obra escrava africana foi o fato de a própria metrópole já a utilizar desde o final da Reconquista, principalmente depois da instalação de entrepostos na África.

PEDRO,Antonio. História da Civilização: ensino médio: volume único.

 

 

Os jesuítas no Brasil

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Os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil com Tomé de Sousa, em 1549, liderados por Manuel da Nóbrega, que se tornou o provincial, isto é, chefe da ordem no Brasil. O poder que os jesuítas exerciam em Portugal, por intermédio do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, instaurou-se também na colônia.

 Jesuítas catequizando índios brasileiros

Na Europa os jesuítas pretendiam reconquistar o terreno perdido para o protestantismo. Na colônia queriam se antecipar a ele e deter sua expansão também fora da Europa. Queriam impedir que o protestantismo fizesse adeptos entre as “almas não-convertidas” dos índios. Isso gerou um intenso conflito entre os jesuítas e os colonos que queriam escravizar os índios para aproveita-los como mão-de-obra nas lavouras de cana. Do ponto de vista do Estado português, o projeto dos jesuítas era mais racional e menos predatório que o dos colonos. Os jesuítas queriam transformar os indígenas em bons cristãos e fiéis súditos do rei de Portugal.

A ação da Companhia de Jesus protegia os indígenas da violência dos brancos, mas dominava-os culturalmente, facilitando sua submissão pacífica à colonização européia por meio da conversão religiosa. Impunha a eles o sistema de vida das chamadas missões-comunidades que produziam para o autoconsumo e excedentes que eram comercializados pelos jesuítas.

As missões de Tape, Guairá e Itatim ocupavam grande parte do atual território do Paraguai, um trecho da Argentina e do Uruguai e parte dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Calcula-se que essas missões chegaram a ter mais de 130 mil indígenas.

Desde meados do século XVI, os jesuítas monopolizavam o ensino em Portugal, quando lhes foi doado o Real Colégio de Artes de Coimbra, cujo objetivo era formar sacerdotes para a catequese nas terras americanas. Esse monopólio se prolongava na colônia.

Os primeiros colégios do Brasil foram fundados em São Vicente e em São Salvador por Manuel da Nóbrega, que auxiliado por José de Anchieta, fundou também e, 1554, o Colégio de São Paulo, origem da cidade do mesmo nome.

Além de ensinar os indígenas, os jesuítas mantinham escolas para os filhos dos senhores de engenho. De uma forma ou de outra, toda a educação e a formação moral da colônia estavam nas mãos dos jesuítas.

PEDRO, Antonio. História da Civilização ocidental: ensino médio; volume único

Duarte da Costa e Mem de Sá

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O governador-geral Duarte da Costa enfrentou vários problemas. Em primeiro lugar, os colonos não aceitaram sua autoridade. Em segundo, não conseguiu impedir que os huguenotes (protestantes franceses) tomassem, em 1555, uma ilha da baía de Guanabara.

As tensões entre o governador e os colonos  diminuíram quando Duarte da Costa, depois de duras lutas contra os índios, distribuiu mais terras para o plantio de cana-de-açúcar. Duarte da Costa foi substituído por Mem de Sá.

Uma das prioridades do governo de Mem de Sá foi o de impor a autoridade portuguesa sobre os índios. De um lado, com o apoio dos jesuítas, acelerou a política da catequese, como forma de efetivar o domínio sobre indígenas mais amistosos; de outro, desencadeou sangrenta guerra aos índios que não se submetiam.

Segundo frei Vicente Salvador, cronista da época que registrou importantes momentos da história colonial brasileira, a ação de Mem de Sá foi bastante violenta. Várias aldeias foram queimadas, e os indígenas foram obrigados a aceitar uma paz sob condições bastante duras.

Além dos indígenas, Mem de Sá tinha outro sério problema a resolver: os franceses, que haviam tomado uma ilha no litoral do Rio de janeiro.

Os franceses pretendiam fundar uma colônia chamada França Antártica, nos moldes das colônias protestantes da América do Norte. Sob o comando de Villagaignon, 600 homens haviam tomado a ilha, onde ergueram fortificações e estabeleceram relações com os tamoios. Esses indígenas, sob a liderança do cacique Cunhambebe, moviam a chegada de uma nova expedição francesa, consolidava-se o plano de instalação de uma colônia protestante no Brasil.

Somente em 1560 é que o governador-geral iniciou a expulsão dos franceses. Os homens de Mem de Sá, depois de encarniçada luta, conseguiram tomar a ilha onde os franceses haviam se estabelecido.

O governador-geral resolveu iniciar a colonização do litoral do Rio de Janeiro como forma de impedir novas tentativas de invasão. Para isso, Estácio de Sá, sobrinho do governador, iniciou, em 1565, a construção da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, entre o morro do pão de açúcar e o morro Cara de Cão, na baía de Guanabara.

A cidade transformou-se num verdadeiro forte, com o objetivo de combater os franceses e os indígenas seus aliados, que ameaçavam o litoral até São Vicente.

Em 1570, Mem de Sá terminou seu governo e foi substituído por D. Luís Fernando de Vasconcelos, que  pretendeu a ocupação da região norte da colônia. Para isso, Vasconcelos instituiu o sistema de dois governos: um do norte, com capital em São Salvador, cuja jurisdição ia de Pernambuco até Porto Seguro; outro com capital no Rio de Janeiro, cuja jurisdição ia de Porto Seguro até o limite  sul da colônia.

Os órgãos da administração colonial

A fundação dos primeiros povoamentos e vilas no litoral foi o ponto de partida para a ocupação territorial. As vilas maiores eram as bases de administração  e o centro de poder que mantinha contato com a metrópole. Essas vilas eram dominadas pela elite política colonial, que detinha o poder municipal por meio de dois órgãos: a alcaidaria, dirigida pelo alcaide (capitão da vila), e a câmara municipal.

O órgão mais importante da administração colonial era a câmara. Sua dupla função atesta sua importância. Era o órgão representativo da população local, e ao mesmo tempo, o instrumento de poder do governo-geral na sua região.

Cada câmara tinha dois juízes: um eleito e outro nomeado pela Coroa, chamado por isso de juiz de fora. Dela participavam vários outros membros, todos eleitos pelos chamados homens-bons, isto é, proprietários de terras e de escravos.

PEDRO, Antônio. História de civilização ocidental: ensino médio – volume único.

Criação dos governos gerais

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No século XVI o Estado absolutista português já se encontrava consolidado e tinha dois importantes órgãos administrativos, o Conselho Real, cujos membros eram nomeados pelo próprio monarca, e as Cortes, representação das diferentes classes (ordens) sociais. Era semelhante a um parlamento, mas sem poder deliberativo.

Além desses órgãos administrativos, a Coroa contava com um conjunto de leis, conhecidas como Ordenações Manuelinas, que estabeleciam amplos direitos ao rei. Pelo menos nominalmente, todas as terras pertenciam ao monarca, e todos os habitantes, tanto da metrópole como da colônia, eram seus súditos.

Com a constituição do governo-geral, muito mais adequado ao absolutismo da metrópole, seria mais fácil de coordenar a política mercantilista e a exploração econômica do Brasil, garantindo lucros para a burguesia comercial lusitana e rendas para a Coroa. Além disso acreditava-se que esse sistema administrativo poderia defender melhor as terras brasileiras da cobiça de outras potências européias.

Os jesuítas, que aqui chegaram  junto com o primeiro governador geral, ajudaram a assegurar a administração colonial catequizando os índios. Quando Portugal e o Brasil passaram para o domínio da Espanha (1580-1640), o sistema administrativo sofreu pequenas alterações.

Tomé de Sousa – Primeiro Governador-Geral

 No começo de 1549, Tomé de Sousa foi designado governador-geral do Brasil, chegando aqui em março daquele ano. No dia 1 de novembro de 1549, fundou a cidade de São Salvador, a primeira capital do Brasil. Como governador-geral, Tomé de Sousa estava obrigado a seguir as determinações do regimento real. Uma delas era reprimir os Tupinambá, que não reconheciam a autoridade portuguesa. Outra, catequizar o maior número possível de índios com o auxílio dos padres jesuítas que vieram com ele para o Brasil. A escravidão do indígena era proibida, e o governador estava encarregado de reprimi-la. Outra incumbência  importante era perseguir e lutar sem trégua contra piratas estrangeiros que traficavam o pau-brasil.

Cabia ao governador-geral organizar um sistema de cobrança e fiscalização dos impostos, criando o cargo de provedor-mor (fiscal), e desenvolver a política de incentivos aos engenhos de açúcar. O governador deveria ainda criar a Casa de Alfândega para facilitar ao corregedor-mor a tarefa de organizar os livros da Fazenda Real (espécie de ministério da Fazenda/Economia).

Depois, distribuiu sesmarias pelo interior, dando origem a fazendas de gado, trazido da ilha de cabo Verde. Apesar de todo dinamismo, o governador-geral encontrou duras resistências por parte da próspera capitania de Pernambuco, sob a chefia de Duarte Coelho.

Em 1551, Tomé de Sousa, criou o primeiro bispado do Brasil, dirigido por D. Pero Fernandes Sardinha. Seu período administrativo findou em 1553, e ele foi substituído por Duarte da Costa.

Pedro, Antônio: História de Civilização ocidental: ensino médio: volume único.

 

O encobrimento do Brasil

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Em 1992, por ocasião dos 500 anos da viagem de Colombo, houve intenso e extenso debate nas Américas e na Europa sobre o vocabulário adequado para descrever a chegada dos europeus ao continente. Uma crítica devastadora foi então feita ao uso da palavra “descobrimento”, ou “descoberta” […]

Falar em “descobrimento”, argumentou-se, implicava dizer que essas gentes e civilizações só tinham passado a ter existência real após a chegada dos europeus. Implicava ainda dar um tom falsamente neutro a um processo que foi violento e genocida. Os 5 milhões de nativos da Hispaniola, aonde chegou Colombo, desapareceram em um século. Os 2,5 milhões do planalto mexicano foram reduzidos a 2 milhões no mesmo período. Nos Andes, 10 milhões tinham  virado 1,5 milhão ao final do século XVI. […]

A população nativa da parte portuguesa era sem dúvida muito menor do que a da parte espanhola. Mesmo assim, ela foi calculada entre 3 e 5 milhões à época da chegada de Cabral. Digamos 4 milhões. Isso equivalia a quatro vezes a população de Portugal. […] Apesar do menor número, o genocídio não foi menor em termos relativos.[…] Ao final de três séculos, a população da colônia portuguesa era quase a mesma de 1500, com a diferença de que tinham desaparecido 3 milhões de nativos, média de 1 milhão por século. […]

Se as palavras não são para encobrir as coisas, só há uma expressão para descrever o que passou desde 1500: conquista com genocídio dos índios, seguida de colonização com escravidão africana.

CARVALHO,José Murilo de. O encobrimento do Brasil. Folha de São Paulo, 3/10/1999. www.uol.com.br/fol/brasil500/dc acesso 22/2/2006

Descoberta para quem?
No ano de 1992 foram realizadas diversas comemorações do aniversário dos quinhentos anos da chegada dos espanhóis à América.  No ano 2000 foi a vez de comemorar os quinhentos anos da chegada dos portugueses a esse continente. Nas duas ocasiões, muitas pessoas protestaram, questionando as palavras usadas para descrever esses acontecimentos.

O termo “descobrimento da América” (ou “achamento”, como consta nos relatos dos primeiros portugueses na região) menospreza a população nativa. Como os europeus poderiam “descobrir” um continente no qual cerca de 40 milhões de pessoas já viviam havia milhares de anos?

Em lugar de “descobrimento” e “achamento”, muitos autores atuais preferem usar palavras como “invasão” e “conquista”, que não deixam dúvidas a respeito da ação violenta dos europeus.

Quinhentos Anos: No ano de 2000 o governo brasileiro gastou cerca de R$ 3,8 milhões só com a construção de uma réplica da embarcação de Pedro Álvares Cabral, essa réplica seria utilizada nas “comemorações” dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, a embarcação não foi utilizada na festa por ter apresentado inúmeros defeitos. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Movimento Negro Unificado (MNU) e várias outras entidades formaram o Movimento Brasil: 500 anos de Resistência Indígena, Negra e Popular, que protestava contra o clima de festa criado pelo governo.

CARDOSO, Oldimar. coleção Tudo é História. ensino Fundamental

A solução colonial

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Quando, em 1521, subiu ao trono português o rei D. João III, o comércio com as Índias achava-se no auge. Comerciantes e navegantes lusos monopolizavam as rotas das especiarias. O monopólio foi quebrado quando, nesse mesmo ano, chegou às Índias o navegante Fernão de Magalhães a serviço da Espanha. Magalhães havia chegado ao Oriente navegando pelo Ocidente.

Nessa mesma época, a Inglaterra e a Holanda começavam a despontar como novas potências marítimas e a concorrer fortemente com os portugueses. Por isso mesmo, a manutenção de toda a máquina administrativa e comercial de Portugal tornava-se cada vez mais dispendiosa, exigindo enormes quantias de dinheiro. O comércio com as Índias começava a declinar.

A medida que o comércio com o Oriente diminuía de intensidade, o interesse do governo português pelo Brasil aumentava, principalmente depois da descoberta de ouro e prata na América espanhola.

O império colonial português exigia, para sua manutenção, grandes somas materiais. Quanto mais a Coroa portuguesa arrecadava, mais parecia faltar, pois grande parte dos rendimentos era consumida em setores não-produtivos (edifícios suntuosos, artigos de luxo).  Os setores produtivos ficavam praticamente esquecidos. Eis a raiz da crise da economia portuguesa, apesar da riqueza produzida pelo comércio de especiarias.

Para suprir seus crescentes gastos, Portugal recorria a empréstimos de grandes banqueiros holandeses e alemães, que ficavam com a maior parte dos lucros do comércio português, desviados para pagamento das dívidas. A busca de mercadorias no Oriente ficava cada vez mais cara e difícil, obrigando a Coroa a voltar seu interesse para o Brasil.

O primeiro passo para a colonização: Martin Afonso de Sousa

Uma grande expedição composta por cinco navios e comandada por Martin Afonso de Sousa, partiu em dezembro de 1530 rumo à América. O comandante recebeu amplos poderes do rei de Portugal. Um dos mais importantes era o de distribuir sesmarias, isto é grandes lotes de terra para pessoas que se dispusessem a explora-los economicamente. A outra importante função da expedição era o combate aos franceses, que continuavam a freqüentar o litoral.

O resultado mais notável da expedição de Martim Afonso de Sousa foi a adoção do sistema de donatarias ou capitanias hereditárias, definindo uma forma de relação entre metrópole e colônia.

Capitanias hereditárias e administração colonial

A tarefa de administrar as novas terras mostrava-se demais para uma nação que não priorizou seus setores mais produtivos. A solução trazida pela missão de Martim Afonso de Sousa se resumia em adotar  um sistema semelhante ao utilizado pelos portugueses nas ilhas do Atlântico: dividir a colônia em capitanias ou donatarias, que eram faixas de terra com 50 léguas de costa cada uma (aproximadamente 300 quilômetros). As capitanias foram entregues a particulares (capitães ou donatários) para que as administrassem e as explorassem economicamente.

Foi no ano de 1534 que se efetivou o sistema. O donatário ou capitão recebia uma carta de doação pela qual o rei outorgava o direito de posse sobre as terras. Em outro documento, chamado foral, ficavam estabelecidos os direitos econômicos e as relações com a metrópole.

O sistema de capitanias teve resultados desiguais nas diferentes regiões da colônia. Na maioria dos casos, a falta de recursos dos donatários  impedia a exploração lucrativa. De qualquer forma, o sistema ajudou a efetivação da presença portuguesa, aprofundando a colonização e a dominação da Coroa sobre essas terras.

De fato, as capitanias de São Vicente e de Pernambuco tornaram-se rentáveis. A de São Vicente porque contou com o auxílio de capitais da própria Coroa, e a de Pernambuco porque recebeu grande investimentos de mercadores portugueses.

Havia ainda uma questão contraditória de caráter político em relação ao sistema de capitanias. Enquanto em Portugal havia um poder político centralizado. Isso dificultava a manutenção da autoridade da Coroa sobre os donatários. Essa foi uma das razões pelas quais Portugal decidiu impor um governo-geral para administrar a colônia. 

PEDRO, Antônio. História da Civilização:ensino médio: volume único

Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal

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Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal na íntegra:

Senhor Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que - para o bem contar e falar -, o saiba fazer pior que todos.Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.Da mafinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo.A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã Canária, onde andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escobar, piloto. Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E, quarta feira seguinte, pela manhã topamos aves a que chamam furabuchos.Quarta-feira, 22 de abril: Neste dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele: e de terra chá, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome: O MONTE PASCOAL e à terra: a TERRA DA VERA CRUZ.Quinta-feira, 23 de abril: Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças: e, ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças - ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, quatorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos.Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.Então lançamos fora os batéis e esquifes; e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, onde falaram entre si. E o capitão-mor mandou em terra no batei a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batei à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o bater; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linha que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, e especialmente a capitania.Sexta-feira, 24 de abril: E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela; e tomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertamos.Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.E, velejando nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol-posto amainaram também. obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas: e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já de noite, ao Capitão. em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes. bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrês, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta. mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata.Mostram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhe um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhe uma galinha; quase tiveram medo dela: não lhe queiram pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.Deram-lhe ali de comer: pão e peixe cozido, confeites, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e se alguma coisa provaram, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus zoxins; e o da cabeleira esforçava-se por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaramse e dormiram.Sábado, 25 de abril: Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. Entraram todas as naus dentro; e ancoraram em cinco ou seis braças - ancoragem Jentro tão grande, tão formosa e tão segura que podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois que fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram os braços, seus cascavéis e suas campainhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. -oão Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu vivere maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e poisassem os arcos; e eles os poi'saram, mas não se afastaram muito. E mal poisaram os arcos, logo saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais: nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais corria. E passaram um rio que por ali corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga; e outros muitos com eles. E foram assim correndo, além do rio, entre umas moitas de palmas onde estavam outros. Ali pararam. Entretanto, foi-se o degredado com im homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo tornaram a nós; e com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.Então se começaram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam; traziam cabaças de água, e tornavam alguns barris que nós levávamos; enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todos chegassem à borda do batel. Mas junto a ele, lançavam os barris que nós tomávamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que homem lhes queria dar.Dali se partiram os outros dois mancebos, que os não vimos mais.Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos a saber, um no meio e os dois nos cabos. Ali andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.Acenamos-lhe que se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio. Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornamo-nos às naus. Mas quando assim vínhamos, acenaram-nos que tornássemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá o houvesse. Não cuidaram de lhe tirar coisa alguma, antes o mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu, à vista de nós, àquele que da primeira vez o agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo.Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por louçainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia asseteado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas, todos assim como nós. E com isto nos tornamos e eles foram-se.À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros e com os outros capitães das naus em batéis a folgar pela baía, em frente da praia. Mas ninguém saiu em terra, porque o Capitão o não quis, sem embargo de ninguém nela estar. Somente saiu - ele com todos nós - em um ilhéu grande, que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio. Porém é por toda a parte cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele e todos nós outros, bem uma hora e meia. E alguns marinheiros, que ali andavam com um chinchorro, pescaram peixe miúdo, não muito. Então volvemo-nos às naus, já bem de noite.Domingo, 26 de abril: Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos. o que foi muito a propósito e fez muita devoção.Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço. A alguns deles se metiam em almadias - duas ou três que aí tinham - as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam tomar pé.Acabada a pregação, voltou o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e tomos todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam indo, na dianteira, por ordem do Capitão Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhe a mar levara, para lho dar; e nós todos, obra de tiro de pedra, atrás dele.Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos; e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não.Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas, e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos, espáduas, quadris, coxas e pernas até embaixo, mas o vazios com a barriga e o estômago eram de sua própria cor. E a tintura era assim vermelha que a água a não comia nem desfazia, antes, quando saía da água. parecia mais vermelha.Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre eles sem implicarem nada com ele para fazer-lhe mal. Antes lhe davam cabaças de água, e acenavam aos do esquife que saíssem em terra.Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão; e viemo-nos às naus, a comer, tangendo gaitas e trombetas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram.Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação ' a água espraia muito, deixando murta areia e muito cascalho a descoberto. Enquanto aí estávamos, foram alguns buscar marisco e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um tão grande e tão grosso, como em nenhum tempo vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira.E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para melhor a mandar descobrir e saber dela mais do que nos nós podíamos saber, por irmos de nossa viagem.E entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se lhes parecia bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui por eles outros dois destes degredadosSobre isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque era geral costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo quanto lhes perguntam: e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixasse, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém entende. Nem eles tão cedo aprenderam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar. E que portanto não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo, para todo mais os amansar e a pacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado.Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos no batéis em terra e ver-se-iam bem como era o rio, e também para folgarmos.Fomos todos nos batéis em terra, armados e a bandeira conosco. Eles andavam ali na prata. à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinha, puseram todos os arcos. e acenavam que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais largo que um jogo de mancal. E mal desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. Alguns aguardavam; outros afastavam-se. Era, porém, a coisa de maneira que todos andavam misturados. Eles ofereciam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que lhes davam.Passaram além tantos dos nossos, e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se. E deles alguns iam-se para cima onde outros estavam.Então o Capitão fez que dois homens o tomassem ao colo, passou o rio, e fez tornar a todos.A gente que ali estava não seria mais que a costumada. E tanto que o Capitão fez tornar a todos, vieram a ele alguns daqueles, não porque o conhecessem por Senhor, pois me parece que não entendem, nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio.Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, em tal maneira que os nossos trouxeram dali para as naus muitos arcos e setas e contas.Então tornou-se o Capitão aquém do rio, e logo acudiram muitos à beira dele.Ali veríeis galantes, pintados de preto e de vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas, que, certo, pareciam bem assim.Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma côxa, do joelho até o quadril, e a nádega, toda tinha daquela tintura preta; e o resto, tudo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia vergonha alguma.Também andava aí outra mulher moça, com um menino ou menina ao colo, atado com um pano (não sei de quê) aospeitos, de modo que apenas as perninhas lhe apareciam. Mas as pernas da mãe e o resto não traziam pano algum.Depois andou o Capitão para cima ao longo do rio, que corre sempre chegado à praia. Ali esperou um velho, que trazia na mão uma pá de almadia. Falava, enquanto o Capitão esteve com ele, perante nós todos, sem nunca ninguém o entender, nem ele a nós quantas lhe demandávamos acerca douro, que nós desejávamos saber se na terra havia.Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furo um grande dedo polegar, metida nele uma pedra verde, ruim, que cerrava por fora este buraco. O Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela direito ao Capitão, para lha meter na boca. Estivemos sobre isso rindo um pouco; e então enfadou-se o Capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não por ela valer alguma coisa, mas por amostra. Depois houve-a o Capitão, segundo creio, para. com as outras coisas, a mandar a Vossa Alteza.Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não mui altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos.Então tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde havíamos desembarcado.Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhe ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.E então o Capitão passou o rio com todos nós outros, e fomos pela praia de longo, indo os batéis, assim, rente da terra. Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão, que Bartolomeu Dias matou, lhes levou e lançou na praia.Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão que para a outra se esquivavam, como pardais, do cevadouro. Homem não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar.O Capitão ao velho, com quem falou, deu um carapuça vermelha. E com toda a fala que entre ambos se passou e com a carapuça que lhe deu, tanto que se apartou e começou de passar o rio, foi-se logo recatando e não quis mais tornar de lá para aquém.Os outros dois, que o Capitão teve nas naus, a que se deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram - do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isto andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e formosos, que não pode mais ser.Isto me fez presumir que não têm casas moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos casa alguma ou maneira delas.Mandou o Capitão àquele degredado Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. Ele foi e andou lá um bom pedaço, mais à tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nenhuma cousa do seu. Antes - disse ele - que um lhe tomara umas continhas amarelas, que levava, e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes, como de Entre Doiro e Minho.E assim nos tomamos às naus, já quase noite, a dormir.Segunda-feira, 27 de abril: A segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos com as outras vezes. Já muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um pouco afastados de nós; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco. Abraçavam-nos e folgavam. E alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer coisa. Em tal maneira isto se passou que jinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde outros muitos estavam moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, deles verdes e deles amarelos, dos quais, segundo creio, o Capitão há de mandar amostra a Vossa Alteza.E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase misturados. Ali, alguns andavam daquelas tinturas quartejados; outros de metades; outros de tanta feição, como em panos de armar, e todos com os beiços furados, e muitos com os ossos neles, e outros sem ossos.Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que, na cor, queriam parecer de castanheiras, embora mais pequenos. E eram cheios duns grãos vermelhos pequenos, que, esmagados entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, je que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.Todos andam rapados até cima das orelhas; e assim as sobrancelhas e pestanas.Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas da tintura preta, que parece uma fita preta, da largura de dois dedos.E o Capitão mandou àquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados, que fossem lá andar entre eles; assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. Aos degredados mandou que ficassem lá esta noute.Foram-se lá todos, e andaram entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma só peça, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro.Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem. Mas quando se fez tarde, fizeram-no logo tornar a todos e não quiseram que lá ficasse nenhum. Ainda, segundo diziam, queriam vir com eles.Resgataram lá por cascavéis e por outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assaz formoso, segundo Vossa Alteza todas estas cousa a, porque o Capitão vô-ias há de mandar, segundo ele disse.E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.Terça-feira, 28 de abril: A terça-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa.Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta em arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer.Enquanto cortávamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande Cruz, dum pau, que ontem para isso se cortou.Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro com que a faziam, do que por verem a Cruz, porque eles não têm coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, segundo diziam os homens, que ontem a suas casas foram, porque lhas viram lá.Era já o conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.O capitão mandou a dois degradados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia (e a outras, se houvesse novas delas) e que, em toda a maneira, não viessem dormir às naus, ainda que eles os mandassem. E assim se foram.Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece haverá muitos nesta terra. Porém eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves então não vimos, somente algumas pombas seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas; eu não as vi. Mas, segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!Cerca da noite nos volvemos para as naus com nossa lenha.Eu, creio. Senhor, que ainda não dei conta aqui a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por alguns que eu creio - o Capitão a Ela há de enviar.Quarta-feira, 29 de abril: A quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia; muitos, segundo das naus vimos. No dizer de Sancho de Tovar, que lá foi, seriam obra de trezentos.Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem mandou que em toda maneira lá dormissem, volveram-se já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. Trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pêgas, a não ser que tinham o bico branco e os rabos curtos.Quando Sancho de Tovar se recolheu à nau, queriam vir com ele alguns, mas ele não quis senão dois mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noite mui bem pensar e tratar. Comeram toda a vianda que lhes deram; e mandou fazer-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. Dormiram e folgaram aquela noite.E assim não houve mais este dia que para escrever seja.Quinta-feira, 30 de abril: A quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E, em querendo os Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas. Trouxeram-lhe vianda e comeu. Aos hóspedes, sentaram cada um em sua cadeira. E de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente lacão cozido, frio, e arroz.Não lhes deram vinho, por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.Acabado o comer, metemo-nos no batei e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. Tanto que a tomou, meteu-a logo no beiço, e, porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cêra vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço detrás para ficar segura, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima. E vinha tão contente com ela, como se tivera uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela, e não apareceu mais aí.Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta.Traziam alguns deles arcos e setas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos. Bebiam alguns deles vinho; outros o não podiam beber. Mas parece-me, que se lho avezarem, o beberão de boa vontade.Andavam todos tão dispostos, tão bem feitos e garantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha, quanta podiam, com mui boa vontade, e levavam-na aos batéis.Andavam já mais mansos e seguros entre nós, do que nós andávamos entre eles.Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água, que a nosso parecer era esta mesma, que vem ter à praia, e em que nós tomamos água.Ali ficamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dela entre esse arvoredo, que é tanto, tamanho, tão basto e de tantas prumagens, que homem as não pode contar. Há entre ele muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos.Quando saímos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos direitos à Cruz, que estava encostada a uma árvore, unto com o rio, para se erguer amanhã, que é sexta-feira, e que nós puséssemos todos em joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. A esses dez ou doze que aí estavam acenaram-lhe que fizessem assim, e foram logo todos beijá-la.Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença.E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E, imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nós trouxe, creio que não foi sem causa.Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação. E prezerá a Deus que com pouco trabalho seja assim.Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que acostumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e fruitos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus.Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que se a gente todos quisera convidar, todos vieram. Porém não trouxemos esta noute às naus, senão quatro ou cinco, a saber; o Capitão-mor, dois: Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem; e Aires Gomes, outro, também por pajem.Um dos que o Capitão trouxe era um dos hóspedes, que lhe trouxeram da primeira vez, quando aqui chegamos, o qual veio hoje aqui, vestido na sua camisa e com ele um seu irmão; e foram esta noute mui bem agasalhados, assim de vianda, como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.Sexta-feira, 1 de maio: E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra, em nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capitão o lugar, onde fizessem a cova para a chantar.Enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela Cruz abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes diante cantando, em maneira de procissão. Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos viram assim vir alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passamos o rio, ao longo da praia e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta. Andando ali nisso, vieram bem cento e cinqüenta ou mais.Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o Padre Frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós.E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nós pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantados, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.Estiveram assim conosco até acabada a comunhão, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros.Algum deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos.Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu, junto com o altar, em uma cadeira. Ali nós pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo é o dia, tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos aumentos a devoção.Esses, que estiveram sempre à pregação, quedaram-se como nós olhando para ele. E aquele, que digo, chamava alguns que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o Padre Frei Henrique se assentou ao pé da Cruz e ali, a um por um, lançava a sua atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e a levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta.Isto acabado - era já bem uma hora depois do meio-dia - viemos a comer às naus, trazendo o Capitão consigo aquele mesmo que fez aos outros aquela mostrança para o altar e para o Céu e um seu irmão com ele. Fez-lhe muita honra e deulhe uma camisa mourisca e ao outro uma camisa destoutras.E, segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os baptizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram ambos.Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha.Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação.Acabado isto, fomos assim perante eles beijar a Cruz, despedimo-nos e viemos comer.Creio, Senhor, que com estes dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se saíram desta nau no esquife, fugidos para terra. Não vieram mais. E cremos que ficarão aqui, porque de manhã, prazendo a Deus, fazemos daqui nossa partida.Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, o longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão arvoredos. que nos parecia muito longa.Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem 1ho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, com em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tome a Jorge de Osório, meu genro - o que d' Ela receberei em muita merçê.Beijo as mãos de Vossa Alteza.Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero  Vaz de Caminha

 

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